Filipa Fixe – “Devemos cada vez mais promover uma cultura de igualdade e de diversidade”

Licenciada em Engenharia Química, mestre em Engenharia Bioquímica e doutorada em Bio/Nanotecnologia no desenvolvimento de chips de DNA, tendo ainda frequentado a Faculdade de Medicina de Lisboa, o percurso profissional de Filipa Fixe é caracterizado por uma forte presença em áreas ligadas à tecnologia e à gestão da saúde, encontrando-se atualmente a colaborar com a Comissão Europeia nas áreas de ehealth. Sendo autora e coautora de várias publicações em jornais e em conferências internacionais nas áreas da bioeletrónica, biomedicina, biotecnologia, educação e ehealth, é atualmente vogal de direção da APDSI e Professora Auxiliar Convidada do ISCSP – Universidade de Lisboa. Fomos conhecer um pouco melhor o fascinante trajeto de Filipa.

O seu percurso profissional é caracterizado por uma forte presença em áreas ligadas à tecnologia e gestão da saúde. Porque tomou a decisão de enveredar pelo mundo empresarial?

O investimento na formação ao nível da licenciatura e do doutoramento capacitam-nos para desenvolver trabalho na área da investigação, mas também no sector empresarial, com a capacidade de devolver à sociedade valor e que, neste sector em concreto, o da saúde, permite que se transforme o ecossistema mais alargado da saúde.

A gestão da saúde e do bem-estar são um foco de atenção das nações, reforçado pela era de pandemia que vivemos nos últimos dois anos. Para que a aposta na prevenção e na gestão da saúde seja efetiva, é necessário que exista um alinhamento estratégico de longo prazo entre os diferentes stakeholders, sejam eles públicos ou privados.

É autora e coautora de várias publicações em jornais, bem como em conferências internacionais, nas áreas da bioeletrónica, biomedicina, biotecnologia, educação e ehealth. De que forma a sua experiência académica contribuiu para o cargo que assumiu na Comissão Executiva da Glintt?

A minha experiência no mundo académico, nomeadamente no doutoramento, foi um desafio pessoal e profissional. A área de investigação pela qual enveredei no doutoramento (desenvolvimento de um chip de ADN) permitiu-me aprender novas disciplinas, colaborar e trabalhar com equipas multidisciplinares e perceber que esta é a única forma de construir novas soluções quer no mundo empresarial quer no mundo académico e/ou de investigação. A complexidade que vivemos nos dias de hoje nos diferentes sectores de atividade só pode ser conduzida e gerida por equipas multidisciplinares, com diferentes experiências profissionais e culturais.

Tendo empreendido uma carreira a nível internacional, o que mais a marcou na sua experiência pelo estrangeiro?

Em primeiro lugar, o crescimento pessoal que proporcionou. A descoberta de viver num país que não conhecia e de que não tinha qualquer referência a nível pessoal ou profissional foi muito boa.

A nível profissional, é perceber uma nova cultura, modelos de gestão diferentes e modelos de relacionamento entre vida profissional e pessoal também diferentes. No primeiro fim de semana, aterrei num sábado e pensei em fazer compras no final desse dia ou no domingo, quando percebi que os supermercados estavam todos fechados nesse período… ou mesmo horários de refeições e tempos dedicados em exclusivo à família.

A capacidade de trabalhar em equipa foi excelente e de ter perspetivas diferentes sobre o mesmo problema/desafio ou oportunidade faz-me sempre pensar que a mais-valia e o que alcançamos depende cada vez mais de um trabalho em equipa e não apenas de um individuo.

Sendo uma das poucas mulheres que assumiu um cargo de liderança numa multinacional, que competências considera serem essenciais para atingir essa função?

Atualmente, e felizmente, assistimos a cada vez mais mulheres serem líderes em diferentes organizações. Temos ainda um longo percurso a percorrer, mas devemos cada vez mais promover uma cultura de igualdade e de diversidade para que as instituições tenham líderes com diferentes “bagagens” culturais e profissionais.

Como competências ou atitudes, é crítico ter disciplina, gestão transparente, aberta e consistente, e garantir que cada um perceba o que pode contribuir para o sucesso da organização. A definição de um plano estratégico com objetivos que possam ser mensuráveis e que permitam avaliar o caminho que está a ser seguido. A capacidade de delegar, de ouvir e de estar com as equipas é também fundamental para gerir e perceber como funciona a organização.

A sorte resulta do que fazemos no nosso dia a dia e isso é algo que devemos ter sempre presente.

Quais os maiores desafios que se lhe deparam atualmente? E como se vê num futuro próximo?

Vivemos a nível global tempos de incerteza do ponto de vista populacional, financeiro e de estabilidade e cooperação entre nações.

As novas gerações são das mais capacitadas e das mais inovadoras dos últimos anos. Mas permanece o desafio de como transformar todo este potencial numa sociedade mais produtiva, mais próspera e com mais equidade através de um mundo cada vez mais digital.

Os líderes atuais têm de saber “abrir as portas” das suas instituições para que novos modelos, novas tecnologias, novas culturas possam ser ouvidas/incorporadas, garantindo sempre a sustentabilidade atual e futura.

Pessoalmente, gostaria muito de continuar a contribuir para a intersecção entre a inovação e a sua aplicação na sociedade, quer na área digital e das tecnologias emergentes quer na área das ciências da vida e na jornada do cidadão na sociedade.

As ciências da vida podem e serão transformadas pela tecnologia como nunca e teremos mais capacidade de gerir a nossa saúde à distância um clique. Os profissionais de saúde e de bem-estar serão sempre fundamentais na tomada de decisão apoiada em tecnologias e informação.

Que mensagem deixaria às mulheres empresárias que estão a iniciar os seus projetos?

Arrisquem e façam acontecer. Se acreditam no vosso projeto, na vossa ideia, devem promovê-la, envolver as equipas e as instituições para que as vossas ideias se concretizem com sustentabilidade financeira e com impacto na sociedade.

Os obstáculos ou barreiras serão muitos, mas a vossa paixão, a vossa criatividade, disciplina e motivação serão os agentes catalisadores para que consigam alcançar o sucesso. Devemos perseguir o lema #GreatbyChoice (Jim Collins).

Lema:

  • 99% transpiração e 1% inspiração (Thomas Edison)
  • Pedras no caminho, guardo-as todas e no final faço um castelo (Fernando Pessoa)
  • Lembrem-se sempre de olhar para o céu e nunca para os vossos pés (Stephen Hawking)

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