Graça Morais – “A pintura é a minha vida”

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A menina Graça Morais, que nasceu numa agreste aldeia transmontana, é hoje uma consagrada pintora reconhecida no mundo. Nas suas telas vemos vidas duras e quase sempre mulheres rurais, mães corajosas, anónimas e cheias de força. Tudo o que está pintado aconteceu e foi testemunhado através da vida ou em imagens marcantes. Quase cinquenta anos depois da sua primeira exposição, a artista volta a mostrar os seus trabalhos na Galeria São Roque, em Lisboa, onde há alguns inéditos que são uma homenagem às mulheres ucranianas. 

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Esta exposição tem obras de épocas diferentes, mas tem uma prevalência de pinturas de 2022. Os trabalhos mais recentes dizem respeito aos lobos, não querendo insultar esta espécie. Mas estes lobos muitas vezes não têm rosto e são piores do que predadores. Estas minhas mais recentes pinturas são retratos a partir de fotografias que apareciam nos jornais diários sobre mulheres ucranianas. Quis pintá-las  devido ao espanto e revolta que sentia e sinto perante a invasão de Putin à Ucrânia. 

Estas mulheres foram escolhidas ao acaso ou houve uma razão?

Percebi que as mulheres entrevistadas para a televisão, na maioria a deixar a Ucrânia, eram mulheres muito bonitas, bem arranjadas, apesar da guerra, mas ao mesmo tempo as que ficaram eram por certo as mais pobres, com menos possibilidade de viajar ou que por outra qualquer razão não puderam sair. Eram mulheres com um olhar muito duro e de natureza muito forte, muito corajosas, por isso resolvi pintá-las. 

A mulher é o centro da sua obra. 

Desde sempre pinto mulheres do campo. Cresci entre mulheres lutadoras e corajosas, sempre a ouvir as suas histórias. E muitas mulheres da minha aldeia e de outras próximas ficaram sozinhas com os filhos porque os maridos emigravam. Todas estas mulheres foram para a minha pintura porque as admirava e gostava da sua forma corajosa de enfrentar a vida, cheias de personalidade. E fiz-lhes uma homenagem, mas sem dizer que ia homenageá-las; o que me interessava era contar e mostrar, às pessoas que veem as exposições, mulheres anónimas, sem visibilidade, sem reconhecimento e às vezes maltratadas. Ao levá-las para a minha pintura e expô-las em museus, dei-lhes a importância que se atribui às rainhas. 

 

Todas estas mulheres foram uma inspiração para o seu trabalho?

Eu não gosto da palavra inspiração. A pintura é a minha vida, por isso acabo por pintar o que vou vendo ao longo do meu caminho. Há uns anos, fiz uma exposição, na Culturgest, onde expus uma série de retratos de pessoas rurais, e quem viu esses trabalhos disse que eu tinha dignificado aqueles seres humanos. Houve um homem que me cumprimentou e disse-me que era médico e que sempre tivera vergonha de dizer que era filho de um cavador, mas que depois de ver aquelas pinturas iria sentir-se honrado por ser filho de gente humilde que trabalhava a terra.  Ele tinha vergonha das suas origens e, como coloquei, naquelas paredes, mulheres e homens iguais aos seus pais, ele reconheceu que essas pessoas eram tão importantes como um doutor ou Presidente da República.

Qual foi a sua primeira exposição?

Realizei a primeira exposição em 1974, quando estava a viver em Guimarães. Fiz uma série de pinturas a partir daquilo que os meus alunos faziam, em conjunto com os seus retratos. De facto, percebi Picasso quando dizia ter aprendido muito com a arte infantil. As crianças não têm censura, são muito espontâneas e eu como professora também as motivava e dava-lhes liberdade. A partir do retrato desses alunos, que tinham entre 10 e 13 anos, e outras pinturas que eles fizeram que depois reentreguei nas minhas telas, fiz a minha primeira exposição. Ainda tenho alguns desses quadros comigo. Não exponho tudo o que faço, há obras censuradas por mim, ficam viradas para a parede, até achar que estão bem resolvidas – passados anos olho para elas e afinal fico contente com o resultado.

Quando foi que percebeu que tinha valor, que era admirada?

À medida que expunha, ia recebendo críticas, umas positivas e outras nem tanto. Mas talvez seja após uma exposição em Lisboa, na Sociedade Nacional de Belas-Artes, com pequenos desenhos que tinha feito em Paris, porque houve um artigo, de Fernando Assis Pacheco, para O Jornal – não o conhecia pessoalmente, apesar de admirar a sua obra –, onde escreveu duas colunas sobre o meu trabalho. Mais tarde disse-lhe que me tinha aberto as portas da cidade de Lisboa e ele respondeu dizendo “a Graça é que é boa, eu limitei-me a escrever o que vi”. Também comecei a receber convites para expor em vários países e espaços de Lisboa e Porto; aí senti que estava a fazer algo de importante porque os entendidos reparavam nas minhas pinturas e falavam sobre o meu trabalho. Isto deu-me muita força. 

Tem algumas obras mais preferidas? Há quem diga que são como filhos. 

Não concordo, eu só tenho uma filha e a relação que tenho com ela em nada tem que ver com a que tenho com os quadros. Um quadro é uma entidade em si e que depois ganha uma vida própria.

Onde se podem ver obras suas em permanência?

Em Bragança, no Centro de Arte Contemporânea Graça Morais. É sempre bom viajar até àquela terra, saborear o ar puro, apreciar a cidade, que está muito bonita e que tem uma gastronomia bastante variada e muitos outros monumentos para visitar.

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