Comparação: o pecado mortal do século XXI

Na escola, lembro-me da comparação essencialmente como figura de estilo, não como verbo para determinar as diferenças ou semelhanças entre duas coisas ou, ainda, pôr em confronto ou igualar-se a algo. E a culpa é do Eça, que a ela recorria, para ironizar, no seu clássico Os Maias.

Sendo uma figura de estilo, a comparação sofre do mesmo mal de todas as outras: é uma estratégia que se aplica à palavra ou texto para se conseguir um determinado efeito na interpretação de quem lê, ouve ou vê. Sendo o ser humano um ser social, que precisa de sentir que “faz parte” de uma família, grupo ou tribo, dar-lhe a comparação como “prenda” para se sentir acolhido ou para que procure ser melhor ou mais eficiente pode não só não ter o efeito desejado, como até provocar o efeito oposto. Será que vou sentir-me melhor comigo ou avançar na minha vida se estiver sempre a olhar para os outros? E, se os nossos valores são diferentes, faz sentido comparar?

Para tudo! A comparação não foi o que nos fez evoluir como espécie? Em termos gerais, o que nos fez e faz evoluir como espécie é o apuramento das características genéticas que nos tornam “melhores” quando comparados com a nossa versão anterior. Por isso é que o Homem passou por várias etapas até chegar ao Homo sapiens. E muito provavelmente vamos continuar a evoluir…

Será a comparação uma arma de evolução ou mais uma arma de destruição?

Enquanto as pessoas estão a comparar-se, não estão a tomar as rédeas das suas vidas e podem sempre atribuir culpa a tudo o que lhes acontece, ou não acontece, a fatores exteriores. A começar no Mercúrio retrógrado. Que, por acaso, começou dia 9 de setembro e vai estender-se até inícios de outubro. Por isso, já sabem, os aparelhos eletrónicos vão ter chiliques, a Internet vai falhar várias vezes, o vizinho do lado vai ficar ainda mais antipático e, se está a pensar assinar qualquer contrato, pense duas vezes. Diga que não. Ou seja, temos mais uma oportunidade para culpar o Mercúrio por não estarmos a conseguir ser mais saudáveis nas nossas escolhas emocionais, mentais e físicas. E quando não podemos imputar tudo ao Mercúrio retrógrado?

O primeiro compromisso, o primeiríssimo de todos, deveria ser para connosco. E as perguntas a fazer deviam ser “o que dá sentido à minha vida?”, “o que me preenche?”, “quero ser saudável?”, “quero começar a praticar exercício físico para me sentir bem?”. Aquilo a que assistimos, porém, é uma eterna aplicação do ditado popular “a galinha da vizinha é melhor do que a minha”. E assim que nos conectamos a uma rede social… Deus nos valha. É só ver quem é que tem a vida mais excitante ou o corpaço mais no sítio, quem perdeu mais peso num curto espaço de tempo, quem tem mais amigos… a lista poderia continuar indefinidamente até chegar à China. Somos todos diferentes e nunca o direito a ser autêntico foi tão proclamado. Então porque continuamos a bater na mesma tecla? Porque não procuramos interrogarmo-nos de outra forma? “Quero ser saudável e perder peso porque é o melhor para mim e para a minha saúde ou porque quero competir com a “giraça” ou “giraço” lá do trabalho, que, por acaso, tem um metabolismo diferente do meu, um tipo de corpo diferente do meu e não tem problemas de tiroide!”

No caminho para uma vida mais saudável o mais importante é o primeiro compromisso, o primeiríssimo de todos, ou seja, fazer o nosso caminho. O nosso! Não o da mãe, nem do pai ou do irmão ou irmã, nem do primo ou prima e, muito menos, de toda a gente que conhecemos. Esqueça a pista do lado. Nade só para si. Não pense na vida como um sprint e sim como uma maratona. Seja fiel a si próprio. O resto são peanuts, já dizia o outro senhor.

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