Gestão do peso

A má gestão do peso é provavelmente a maior queixa dos pacientes nos dias de hoje, o que está em consonância com o alerta lançado pela Organização Mundial da Saúde de que a obesidade é mesmo a pandemia do século XXI, tal é o aumento generalizado de peso que se regista em todas as populações dos quatro cantos do mundo.

A maioria das pessoas já fez todas as dietas e perdeu peso, mas, geralmente, recupera não só os quilos perdidos como ganha ainda mais. Quando recorrem à minha consulta, por vezes sentem-se desmotivadas, sem saber o que fazer, e por isso é importante transmitir é que “a culpa não é sua”. A obesidade não é sempre um problema de falta de vontade ou de motivação. É mais complicado do que isso. A chave para uma perda permanente de peso é o equilíbrio hormonal. Muitos distúrbios hormonais farão ganhar peso, e não há nenhuma dieta no mundo que resolva definitivamente o problema se o distúrbio hormonal não for corrigido.

As hormonas regulam o nosso apetite, o desejo de comer, o metabolismo e o peso corporal. A maioria dos pacientes manifesta sintomas que podem ser atribuídos a numerosos problemas hormonais, isto porque, quando uma hormona está em desequilíbrio, ocorre uma reação em cadeia, levando ao desequilíbrio de outras hormonas. A capacidade de processar os alimentos está intimamente ligada a esses níveis hormonais e também ao peso corporal, ou seja, as nossas hormonas realizam interações poderosas com as nossas células adiposas (células que armazenam gordura) exercendo uma influência significativa sobre o nosso peso.

Os distúrbios hormonais podem ocorrer por falência total de uma glândula ou por uma deficiência ligeira dessa mesma glândula. Há centenas de hormonas que estão envolvidas na regulação do nosso peso corporal. As glândulas que produzem essas hormonas são as suprarrenais, a tiroide, a hipófise, os ovários, os testículos e até as células adiposas.

Os distúrbios mais frequentes na minha consulta são a resistência à insulina, o hipotiroidismo, a menopausa, a síndrome dos ovários poliquísticos, o hipogonadismo masculino e o stresse. Todas estas condições podem retardar o nosso metabolismo, aumentando o apetite e levando ao aumento de peso.

Resistência à insulina

É o problema hormonal mais comum em todo o mundo. De forma muito simples, a resistência à insulina ocorre quando as células do corpo não “ouvem” a mensagem da insulina, cuja principal função é remover o açúcar da circulação sanguínea e transportá-lo para dentro das células, para que possa ser usado como combustível. Quando temos uma resistência à insulina, as células “lutam” para obterem o açúcar em quantidade suficiente a partir da circulação sanguínea, o que significa que as pessoas que sofrem desta condição produzem muita insulina, queimam menos açúcar para obter energia, sendo o resultado a sensação de fome (principalmente de doces, salgados e de alimentos crocantes) e de cansaço (muitas vezes com necessidade de dormir a sesta) e a desaceleração do metabolismo. Inicialmente, a resistência à insulina não apresenta sintomas, sendo que estes só começam a aparecer tardiamente. Diversas circunstâncias podem causar esta condição, como sejam:

  1. Genética. Quando há história familiar de diabetes ou obesidade, há uma maior probabilidade de se ter resistência a insulina.
  2. Sedentarismo.
  3. Stresse. Quando estamos stressados, é libertado cortisol e adrenalina, que promovem a resistência a insulina.
  4. Problemas renais e hepáticos. Destaco a hemocromatose, que é um distúrbio genético comum do metabolismo do ferro.
  5. Deficiência de vitamina D3.

A resistência à insulina está ligada a uma variedade de complicações médicas, sendo que, tratando-a adequadamente, todas estas complicações podem ser controladas ao mesmo tempo. Falamos de dislipidemia, défice de testosterona nos homens, doenças cardiovasculares, diabetes, fígado “gordo”, cálculos na vesícula, gota (ácido úrico aumentado), hipertensão arterial elevada, aumento da coagulação sanguínea, perturbações do sono, problemas de pele (manchas na pele, psoríase, acne, estrias, micoses e acanthosis nigricans, uma forma de hiperpigmentação da pele que a torna escura em algumas zonas), apneia do sono.

Hipotiroidismo

O hipotiroidismo (baixa atividade da glândula tiroideia) pode afetar qualquer pessoa e em qualquer idade. É, no entanto, mais frequente no sexo feminino e tende a desenvolver-se quando envelhecemos. Os sintomas desta patologia podem variar de acordo com as características individuais, mas os principais são:

  • Aumento de peso
  • Fadiga, sonolência, bocejos e exaustão.
  • Dores articulares, dores musculares e caibras.
  • Sensação de estar sempre com frio.
  • Sudorese (transpiração) diminuída.
  • Obstipação (prisão de ventre) distensão abdominal e flatulência (gases).
  • Depressão.
  • Problemas de pele – rosácea.
  • Problemas de cabelo – cabelo mais fino, quebradiço e com mais queda.
  • Problemas de unhas – quebradiças com estrias e com crescimento lento.
  • Retenção de líquidos na zona da face (cara e olhos), mãos, pés e pernas.
  • Problemas menstruais e infertilidade.
  • Diminuição do desejo sexual.
  • Voz rouca.
  • Colesterol elevado.
  • Hipertensão arterial.
  • Frequência cardíaca baixa.
  • Anemia.
  • Alergias ou urticaria.
  • Sinusite (episódios) frequentes.

Menopausa

A menopausa é definida como o último período menstrual e é geralmente confirmada quando a mulher não tem período durante doze meses consecutivos. Ocorre em média aos 51,4 anos de idade e traduz-se num desequilíbrio hormonal, ou seja, há uma diminuição na atividade dos ovários, que deixam de libertar óvulos todos os meses, além de uma diminuição de produção de estrogénios, progesterona e outras hormonas.

Os primeiros sintomas que as mulheres manifestam são afrontamentos e calores noturnos, irritabilidade, ciclos menstruais irregulares, alterações de memória, irritabilidade, pouca tolerância, diminuição da libido, secura vaginal, tensão mamária, pele seca e alteração da qualidade do sono (não consegue manter o sono, acordando antes do despertador), enxaquecas, infeções urinárias frequentes e aumento de peso (principalmente na região abdominal).

Estas alterações levam a maioria das mulheres a sentirem-se irritadas, pouco tolerantes, com oscilações de humor, o que conduz à toma de antidepressivos e ansiolíticos, bem como de indutores do sono para resolverem as insónias. Na realidade devíamos fazer uma avaliação analítica das hormonas e perceber quais as hormonas alteradas para tratar as causas e não as consequências.

Síndrome dos ovários poliquísticos

A síndrome dos ovários poliquísticos (SOP) é uma das endocrinopatias (doenças hormonais) mais comuns na mulher em idade reprodutiva, afetando aproximadamente cinco a dez por cento das mulheres na idade reprodutiva. Caracteriza-se frequentemente por ciclos menstruais irregulares e com alterações do fluxo, pelos em excesso na face ou corpo, alopecia (perda de cabelo), problemas de pele, tais como pele oleosa, acne, marcas escuras na parte de trás da nuca (acanthosis nigricans), excesso de peso (principalmente na zona abdominal), dificuldade para engravidar, depressão e ansiedade.

O excesso de peso nas mulheres com SOP é um fator que agrava os sintomas desta síndrome, sendo que a gordura está mais presente na região abdominal e, ao aumentar a resistência à insulina, verifica-se um ganho de peso quase inevitável. A perda de peso quebra este ciclo e minimiza os sintomas de resistência à insulina e excesso de androgénios, razão pela qual, em pacientes com este problema, importa quase sempre instituir terapêuticas com e sem fármacos para promover essa alteração ponderal.

Hipogonadismo masculino

O hipogonadismo masculino é uma síndrome clínica causada por deficiência androgénica (testosterona, androstenediol e DHEA). Pode afetar negativamente as funções de múltiplos órgãos e a qualidade de vida pois estas hormonas desenvolvem um papel crucial no desenvolvimento e na manutenção das funções reprodutivas e sexuais do homem. Frequentemente, o primeiro sintoma é a diminuição das ereções matinais e diminuição da libido (desejo sexual). Posteriormente, os homens sentem-se mais cansados, com baixa energia e com dificuldade em manter uma boa função erétil e um desempenho sexual normal, irritáveis e com diminuição da massa e força musculares.

O hipogonadismo é uma causa comum de excesso de peso, principalmente porque há perda muscular e aumento de gordura. Estes homens têm menos vontade de praticar exercício físico, o que contribui para o aumento de peso.

Stress

O stresse é uma das causas mais frequentes de aumento de peso, porque, apesar de o cortisol ser necessário para a nossa sobrevivência, o seu excesso de produção aumenta o apetite, principalmente por hidratos de carbono (açúcares), conduzindo desta forma a um aumento do peso. O excesso de cortisol (também chamado hormona do stresse) associado a uma alimentação não adequada conduz a um aumento da gordura, essencialmente na região abdominal, no tronco e face, assim como à perda muscular nos braços e pernas, levando a um metabolismo mais lento e a uma profunda fadiga.

O excesso de cortisol reduz os níveis de hormonas responsáveis pelo aumento da massa muscular e ocorre uma desaceleração do metabolismo porque o funcionamento da tiroide é inibido. Pode também ser responsável por patologias como a hipertensão arterial, dislipidemias (alterações na produção e degradação das gorduras), depressão, transtornos de humor, ansiedade e labilidade emocional, interferindo ainda com o sistema imunitário.

Sono

O ciclo sono-vigília é um ritmo circadiano, isto é, em condições naturais este ritmo apresenta sincronização com fatores ambientais e oscila com um período de 24 horas. Todos os nossos órgãos possuem os seus próprios ciclos circadianos, por isso um bom equilíbrio hormonal requer que os mesmos estejam sincronizados, ou seja, qualquer perturbação nesta manutenção do nosso ritmo biológico (por exemplo, o trabalho por turnos) pode ter um impacto nocivo sobre as nossas hormonas, metabolismo e consequentemente no nosso peso.

As hormonas mais importantes para o ciclo de sono-vigília são o cortisol e a melatonina. A produção de melatonina acontece no cérebro e depende dos níveis de luminosidade. À noite, com um nível baixo de luz, a produção de melatonina aumenta. O cérebro, na hora de dormir, aumenta a produção desta hormona, que, por sua vez, induz a sensação de sono. Com o nascer do sol e a claridade a aumentar, a secreção de melatonina é reduzida, levando ao despertar e ao acordar naturalmente. Quando a produção de melatonina está descontrolada, surgem dificuldades em dormir e, consequentemente, também se verifica um sono de fraca qualidade, um aumento da sensação de fome e de menor saciedade, um aumento da vontade de comer doces, stresse e ansiedade.

Se fizermos uma avaliação individual e personalizada, percebemos quais os desequilíbrios hormonais que podem estar a dificultar a perda de peso. É sempre importante percebermos que, estando bem por dentro, isso vê-se por fora.

/ Artigos Relacionados

Artigos Relacionados

Respirar

Devemos agradecer por tudo o que temos na vida. Até mesmo o ar que respiramos!