André Jordan – “Sempre procurei harmonia em tudo o que faço”

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A vida de André Francisco Spitzman Jordan começa em Lviv, antes, Polónia, agora, Ucrânia, a 10 de setembro de 1933, de onde a família fugiu do Holocausto. Passa por vários países,ficando no Brasil e voltando a Portugal em 1970, residindo aqui há já mais de cinquenta anos. Neste canto, cheio de sol, conhecemos a sua força empreendedora, que teve início no Algarve, na Quinta do Lago e Vilamoura. Mais recentemente, criou, no município de Sintra, o Belas Clube de Campo. Recebeu ao longo da vida, repleta de histórias, vários prémios e distinções nacionais e internacionais. Sempre a sorrir, revela uma imensa paixão por cada pedaço já vivido, fala com sotaque doce da Terra de Vera Cruz e, com imenso humor, conta histórias que nos fazem esquecer o tempo. Conseguiu ver o que ninguém viu e fez nascer o turismo e o golfe em Portugal.

Há cinquenta anos, olhou para um espaço e idealizou uma espécie de paraíso.

Foi um acaso. Quando me falaram na Quinta dos Descabeçados, era assim que se chamava a Quinta do Lago, não fazia ideia do que era. O meu pai tinha falecido há pouco tempo e eu viera a Portugal para arrumar a papelada. Como gostava tanto deste país, queria encontrar algo interessante para ficar. Naquele tempo não tinha nada, nem dinheiro, e não sabia se ia ter. O arquiteto João Caetano, que tinha trabalhado com o meu pai, conhecia bem o banqueiro Afonso Pinto de Magalhães e promoveu um encontro, isto porque ele tinha propriedades no Algarve, que faziam parte da empresa Aquazul, uma delas a Quinta dos Descabeçados. Foi ele que mobilizou os fundos necessários para desenvolver um empreendimento.

Foi ao Algarve conhecer essas propriedades?

Sim, uma semana após este encontro, isto em 1970, fui ver várias propriedades. Nada me interessou, mas, na manhã de domingo, fui acordado pelo colaborador da empresa, que andava a mostrar-me os terrenos, para irmos a Almancil. Fomos numa Renault 4L por estradas de areia, rodeadas de pinheiros, perdemo-nos e eu, já impaciente, só queria voltar ao hotel porque não via nada para o empreendimento que tinha em mente. O homem entrou em desespero e disse-me que seria despedido se não mostrasse o terreno. Acedi e, depois de muitas voltas, finalmente chegámos. Subi a uma colina e fiquei deslumbrado. Senti uma emoção que até hoje não sei explicar. Ao longe, o mar azul, em baixo, areia dourada e tudo rodeado de verde. Subi a outra colina, onde estava a casa velha, e vejo uma pequena planície, onde imaginei um lago alimentado pelas águas da ria Formosa e também um campo de golfe, isto porque uns lotes ficariam virados para o mar e outros para o golfe. Este era o conceito básico do projeto, que depois teve outros fatores, mas em meia hora eu visualizei tudo o que aquilo poderia ser. A propriedade foi-me vendida por 5,5 milhões de dólares, consegui segurar o negócio com uma boa estratégia financeira e com um empréstimo, que se veio a verificar cheio de peripécias, de duzentos mil dólares de Roland de la Poype, herói da Segunda Guerra. Isto porque ele entregou-me o dinheiro em notas. A compra da propriedade pela Planal, a empresa constituída para o efeito, deu-se em 1971, a 21 de dezembro.

E assim começou a Quinta do Lago.

Algo que foi possível porque naquele tempo ninguém queria aquilo, porque tinha uma densidade muito baixa de construção autorizada. Eu sabia que ao contrário é que era: quanto mais baixa a densidade de construção, maior valor teria o metro quadrado. Vender lotes pequenos e individuais com jardim é que dava resultados financeiros. Aquele espaço tinha quase mil hectares, e para mim seria algo como os country clubs americanos. A inauguração da Quinta do Lago foi a 25 de junho de 1972. Por ali não havia quase nada, por isso, fiz a Casa Velha, porque queria algo que revelasse o estilo elegante e sofisticado que seria a Quinta do Lago. O projeto de reconstrução desta casa, que já estava na quinta, foi do arquiteto Fernando Torres, especialista em arquitetura regional algarvia, e a decoração foi de Pedro Leitão, que idealizou um estilo rústico elegante. Aquilo fez um efeito incrível. Para a inauguração trouxemos para o Algarve pessoas da alta sociedade daquela época, vindas de todos os cantos do mundo.

Foi fácil começar a vender o empreendimento?

Nos primeiros tempos da Quinta do Lago, era difícil comercializar os lotes, porque não havia agências que vendessem na Europa e nos EUA, nem se encontravam meios de divulgação. Havia a revista Vogue, que eu usei para fazer publicidade, e começámos a vender. Um general canadiano veio comprar um lote, naquele tempo custavam cinquenta mil dólares. Perguntei-lhe porque é que estava interessado, gostava de saber a motivação das pessoas. Ele tirou da carteira um clipping de um jornal, já amarelo, e disse “quando vi isto, percebi que era para mim”. Aí senti o quanto a Quinta do Lago era importante, não havia resorts assim.

Também pensou no golfe, havia praticantes nesse tempo?

Tudo indicava que não, havia três campos: Vale do Lobo, Vilamoura I e Penina. Antes de fazer esta propriedade, fui ter com o Artur Cupertino de Miranda, do antigo Banco Português do Atlântico, que era dono de Vilamoura e amigo do meu pai. Queria que eles, Lusotur, me cedessem uma zona, para fazer um golfe e mais de cem apartamentos; ele disse-me para falar com o seu administrador. Porém o homem disse-me “já existem três campos e estão sempre vazios, e o senhor veio falar-me de mais um?”. Correu comigo, eu saí de fininho, muito dececionado por não terem gostado da ideia. Mas, em 1974, foi aberto o primeiro campo na Quinta do Lago, desenhado por William F. Mitchell com 27 buracos. Hoje, a Quinta do Lago tem quatro campos de golfe e Vilamoura, cinco. No Algarve há cinquenta campos, e Portugal tem noventa no todo.

Logo a seguir acontece a Revolução de Abril, como ficou o empreendimento?

Naquele tempo, as receitas pararam porque não havia turistas, nem golfistas, mas havia trabalhadores que tinham de ser pagos. Para fazer face ao que estava a acontecer, eu e o administrador-delegado da Lusotor de Vilamoura, Silvério Martins, concebemos um plano de hibernação cujo objetivo era não atirar trabalhadores para o desemprego. Convencemos o Governo a não nacionalizar nada por ali, porque havia proprietários estrangeiros e não se ganhava nada com isso, e os hotéis estavam vazios. Mas havia uma condição, os administradores teriam de sair e seriam substituídos por uma comissão de trabalhadores administrativa. Só que veio o 11 de março, com as nacionalizações dos bancos e das empresas. Estava previsto que aconteceria, já era tudo da comissão de trabalhadores e faltava o último passo. Eu fiquei desempregado.

Como se sentiu?

Muito mal, tive de me ir embora e deixar cinco anos de trabalho. Estávamos em maio de 1975. Primeiro, fui para os EUA, porque me convidaram para tomar conta de uma empresa criada para vender imobiliário no estrangeiro; eles já estavam a trabalhar na promoção da Quinta do Lago e acharam que eu era o ideal. Quando cheguei, percebi que havia uma crise imobiliária tremenda, não se vendia um metro quadrado, e eu não tive coragem de enfrentar essa situação. Fui para o Brasil, fiquei lá quase seis anos. Acabei por passar dificuldades, porque fiz um empreendimento na Baía que foi pioneiro, mas com sócios pouco confiáveis, e correu mal. Acabei por ter uma depressão, fiz terapia para me recompor. E, para minha surpresa e de todos os que estavam na mesma situação que eu, o Governo resolveu devolver as empresas do sector turístico e fomos chamados.

Os meus dois sócios portugueses viram-me mal e pensaram que podiam ficar com a empresa. Acabámos por fazer um acordo, no Tribunal do Palácio da Justiça de Lisboa, e retomei a empresa, em 1982, e tudo correu bem.

Mas pouco tempo depois despediu-se da Quinta do Lago.

Sim, em 1988, foi comprada por Denis O’Brien, e o CEO é o Sean Moriarty. Mas eu nunca disse adeus à Quinta do Lago; é o meu primeiro filho, um sonho realizado com muita paixão que projetou Portugal no mundo a nível de turismo de luxo. Quando entro na Avenida André Jordan, uma cortesia do presidente da Câmara de Loulé, da época, José Cavaco, antes Avenida Tejo, penso sempre que um dia não vou sentir emoção, mas esse dia nunca chega. O meu maior orgulho é a Quinta do Lago ser hoje na Europa o empreendimento mais importante e pode ser visto como um dos principais do mundo. É um exemplo. Fiquei muito contente por o atual proprietário querer celebrar o 50.º aniversário da Quinta do Lago e fazer-me uma homenagem. Achei muito simpático.

Tudo valeu a pena e foi gratificante, por isso escreveu uma biografia que parece um romance.

Sempre procurei harmonia em tudo o que faço, seja em atividades empresariais, culturais ou religiosas, sou meio judeu e meio católico. Só muito tarde percebi que tudo o que eu faço tem este traço de harmonia e união. A única coisa a que tenho intolerância é a intolerância. Sempre fui a favor da convivência e do entendimento, tenho amigos alemães, mesmo tendo perdido familiares para o Holocausto, porque entendi que não era justo culpá-los, eles nada tinham a ver com aquilo e não podiam ser castigados. Conto as minhas memórias no livro Uma Viagem pela Vida, porque senti necessidade de transmitir, pela minha idade e vivência, as alterações que o mundo foi sofrendo ao longo da minha vida através de exemplos concretos. É uma narrativa de vida com histórias.

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