Manuel Aires Mateus – “A arquitetura serve para fazer suportes de vida”

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Vencedor do Prémio Pessoa, em 2017, Manuel Aires Mateus é um dos arquitetos portugueses mais reconhecidos e autor de dezenas de projetos singulares, construídos de raiz ou recuperados. Lisboeta de nascimento e um viajante do mundo, gosta de colocar, nas suas obras, memórias que vai colecionando. Com um traço que nos remete para o silêncio contemplativo, faz-nos crer que as suas obras estão suspensas num qualquer espaço etéreo. Aos trabalhos que vão desde a mítica Casa de Areia, na Comporta, à sede da EDP, em Lisboa, passando por espaços museológicos, edifícios e casas de habitação e comerciais, chegam novas criações como mesas, cadeiras e outras peças que se vão ajustar ao interior das suas estruturas.

Sempre idealizou que a arquitetura seria o seu percurso profissional?

Era um ato natural seguir este percurso, o meu pai é arquiteto, e a minha mãe, artista plástica, e muito da minha juventude foi vivido no meio artístico. Apesar de ter pensado, em miúdo, seguir Direito, talvez por influência do meu avô que era juiz, não fiz porque, para mim, havia uma normalidade nas artes e desde muito cedo se tornou óbvio o que iria fazer.

Era muito jovem quando idealizou uma escada que ainda hoje utiliza.

Por volta dos 14 anos, fiz a maquete de uma escada para a casa do José Byrne, irmão do arquiteto Gonçalo Byrne, com quem mais tarde trabalhei. Essa escada tinha degraus compensados, que é de facto algo que utilizo imenso. Foi uma espécie de brincadeira que resultou muito bem. Mais tarde, já formado, com 20 e poucos anos, assinei, em conjunto com o Gonçalo Byrne, o projeto para o concurso do Centro Cultural de Belém; não vencemos, ficámos em segundo lugar.

Como define o que é a arquitetura?

Arquitetura é dar significado ao que é banal. Qualquer pessoa pode desenhar e fazer uma casa. Em miúdo, com mais amigos, ajudámos o banheiro da praia de Sesimbra a construir a sua casa, metemos tijolos e cimento, janelas, porta, e ficou feita. Porém, o trabalho de um arquiteto não é construir, é dar propósito à construção, e temos de superar uma espécie de normalidade para dar significado ao nosso trabalho. Precisamos de usar o saber da nossa memória, a nossa individualidade.

As memórias são importantes para o seu trabalho?

As nossas memórias são relevantes, são a individualidade de cada um, e o que procuramos no nosso trabalho é dar essa singularidade. Há algo interessante, gosto mais de recuperar casas do que fazer de novo porque no antigo encontramos liberdade, brincamos com as memórias desse espaço e com as que temos de lugares idênticos. Numa casa nova, não é assim, tudo tem de ser feito com funções muito diretas.

Foram as memórias que o levaram a colocar areia numa casa na Comporta?

A areia para dentro da casa da Comporta era muito evidente. Tem que ver com experiências que a memória guarda e que são importantes, como quando vamos na passadeira para a praia; chegados à areia, andamos mais devagar, como que para absorver aquela maciez. E houve uma situação em Londres, na Tate, de Cildo Meireles, ele tinha uma instalação em talco, a pessoa entrava no espaço e mexia-se muito devagar nesse talco e aquilo tocou-me muito. Depois, há outro momento interessante: quando tinha 18 anos, fui a Paris e havia uma discoteca que era o Les Bains Douche, que tinha um chão de areia e uma piscina onde se terminava a noite, era muito divertido.

A família que encomendou o projeto gostou da ideia da areia no chão?

Funcionou muito bem e, sim, as pessoas gostaram porque era uma experiência real, como uma experiência de vida. A arquitetura tem de fazer muito isto, procurar experiências reais que as pessoas sintam. A arquitetura não serve para fazer imagens. A arquitetura serve para fazer suportes de vida, essa é a sua riqueza.

Na sede da EDP, em Lisboa também projetou memórias?

Podemos considerar que o espaço tinha memórias, e tinha lógica construir perpendicularmente ao rio para não tapar a sua relação com a colina. Construímos dois corpos perpendiculares, que é uma lógica que vem da própria história da cidade, desde o Bairro Alto à Baixa Pombalina. Foi um desafio muito forte, mas é um projeto muito importante. Foi a primeira vez que fizemos um edifício a uma escala evidente de intervenção na cidade. Era um lugar sensível, difícil para construir algo daquele tamanho e envergadura.

Quais os novos projetos que pode destacar?

Estamos a concluir alguns trabalhos, o mais importante é o Pôle Muséal de Lausanne, direcionado ao design e fotografia. Estamos também com alguns projetos que nos interessam particularmente, como uma casa familiar na Austrália, ligeiramente fora de Melbourne. Esta casa é para um casal, ele australiano e ela japonesa, e em termos de arquitetura começa a partir da ideia de uma cruz de luz que é o centro da casa e, para um dos lados, tem a sala, para outro, o quarto, e, noutra perna da casa, o espaço para os netos e outras utilizações noutra parte. Foi idealizada a partir da ideia de chegada a um novo continente. Estamos também a fazer uma outra, no mesmo local, numa zona mais selvagem para um conceito diferente. Terminámos um grande projeto, de 180 apartamentos em Paris, onde estamos a começar outro projeto que é um pequeno hotel, muito peculiar para famílias. Estamos também com um trabalho em Los Angeles, Ibiza, Atenas e numa outra das ilhas gregas.

Em Portugal, quais são os novos trabalhos?

No Sul, temos muitas casas que estamos a fazer de raiz, temos também a recuperação de um pequeno convento em Tavira e vamos recuperar uma casa em Monsaraz, temos duas torres em Oeiras, o que é também muito interessante porque vamos criar um outro nível de ação e dimensão. Temos muito trabalho e muito diferente, e isto agrada-me. Também só me interessa fazer trabalhos que têm carácter de experiências e que possamos entender como únicas, a ideia da repetição é mortal. A arquitetura é a arte do único, cada projeto é um projeto, cada família é uma família, cada pessoa é uma pessoa, e estes trabalhos interessam pela singularidade de cada um.

Está também a fazer uma adega.

Estou e gosto muito, comecei uma primeira adega no Alentejo, em Melides, onde não há tradição vinícola, ainda não há vinho, mas as vinhas já estão plantadas. Será um vinho muito qualificado e ambicioso. A adega é escavada numa montanha, em forma de uma casa em negativo, depois responde com uma casa em positivo, para a sala das provas. É uma adega ambiciosa em todos os sentidos, mas corresponde ao vinho. E estamos a fazer outra no Douro. Isto é um tema novo para nós, são projetos muito interessantes, são industriais e, ao mesmo tempo, pende-nos uma forte carga identitária porque também ajuda o vinho, e o vinho precisa da identidade da adega.

Estão também a fazer uma intervenção na Herdade da Malhadinha.

Vamos introduzir um novo layer, a Malhadinha está feita e é lindíssima, como todo o Alentejo. Há na herdade lugares únicos e nós vamos usar alguns desses espaços para construir zonas muito particulares onde as pessoas podem ficar, mas será à volta da ideia de spas que também vai ter. Com isto iremos criar uma nova identidade, é um trabalho muito interessante, são coisas pequenas pontuais quase cirúrgicas. Eu acredito e gosto muito desta ideia da pequena escala.

Mas sei que há uns trabalhos de design para mobília e outras peças.

É um novo desafio, já fizemos centros de mesa, são uns pratos enormes em pedra, gostámos imenso de fazer este trabalho. No entanto, o que desenhamos são produtos de que precisamos, por exemplo, não há no mercado mesas muito grandes, e tivemos de as criar. Fizemos também uma série de azulejos com a Viúva Lamego porque precisamos deste produto regularmente. Criamos o que as pessoas nos pedem, como já aconteceu com camas e cadeiras, e provavelmente vamos desenhar um faqueiro e pratos. Não vamos criar um gabinete só para isto; os pedidos vão acontecendo e vamos fazendo.

O antigo gabinete vai ser aberto ao público com um lado didático.

Será um espaço multidisciplinar em Lisboa, no bairro de Campo de Ourique. Mas o mais importante é ficar aí o nosso novo arquivo, será uma plataforma com ligações às universidades e centros de investigação, servirá também a todas as pessoas interessadas. A arquitetura é uma disciplina muito frágil com muitos inimigos, por isso precisa de ser protegida e apoiada. Nós estamos a criar este espaço para esse efeito e também servirá para encontros, seminários e outros eventos.

O Prémio Pessoa foi importante para si?

O maior interesse dos prémios é a responsabilidade que nos trazem. Os prémios não mudam a nossa vida, mas o reconhecimento facilita-a porque a arquitetura é uma arte desgraçada que precisa de clientes e não se pode fazer sem clientes. Porém, gostei muito de receber o Prémio Pessoa, acima de tudo porque havia no júri pessoas que estimo e admiro muito, como o meu colega Souto Moura e Francisco Balsemão. Mas, para mim, aquele prémio foi atribuído à arquitetura de uma forma geral, foi o reconhecimento de uma geração e generosamente escolheram-me para a representar.

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