Séverine Frerson

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É a atual cellar master de uma das mais importantes Maisons francesas de champanhe, a Perrier-Jouët, e a primeira mulher a assumir o cargo, em 220 anos de história. O gosto pela enologia começou desde cedo e, ao fim de 20 anos de experiência em Maisons de produção de champanhe, Séverine Frerson já não imagina os seus dias sem uma degustação.

Da região de Epernay, em Champagne, França, para as páginas da F Luxury, a enóloga fala dos maiores desafios da atualidade para uma cellar master e revela alguns dos segredos do estilo “singular, floral e elegante” de um dos champanhes mais prestigiados do mundo.

É a primeira mulher a ocupar o cargo de cellar master da casa Perrier-Jouët em 220 anos? Que significado tem para si?

Claro que é um grande orgulho. Mas eu diria que sou a segunda mulher da casa. Rose-Adelaide Jouët, que cofundou a casa, em 1811, com o marido Pierre-Nicolas Perrier, foi a primeira mulher. Rose-Adelaide Jouët não era a cellar master (era o marido), mas os nossos arquivos mostram-nos que estava muito envolvida na gestão da casa. Era responsável pela área a que hoje chamamos hospitalidade e relações públicas, e, quando o marido, Pierre-Nicolas, estava fora, ela assumia inclusivamente algumas degustações. Rose-Adelaide Jouët era realmente uma mulher inspiradora.

Como começou a sua carreira na área da enologia?

Não venho de uma família de enólogos nem de vinicultores. Na verdade, os meus pais trabalhavam na área da medicina. Mas acabei por descobrir o mundo do vinho porque uns amigos de família tinham um vinhedo. Lembro-me de, em criança, sair para passear entre as vinhas, de entrar nas caves… Desde muito cedo que tenho este forte impulso sensorial para o vinho. Ao crescer, decidi, naturalmente, seguir uma carreira nesta área e, por isso, estudei Enologia, em Reims.

Como foi o seu percurso até chegar à Maison Perrier-Jouët?

Depois de terminar o curso, trabalhei para diferentes casas de champanhe e, após cerca de 20 anos de carreira, ingressei na Maison Perrier-Jouët, em outubro de 2018, para ser a oitava mestre de adega da Maison desde 1811. Após um período de transferência de dois anos com meu antecessor Hervé Deschamps, tornei-me mestre de adega da Maison Perrier-Jouët em outubro de 2020.

O que mais a atrai no mundo da enologia?

Para mim, o vinho é a essência de quem sou. Não é apenas uma paixão, mas um impulso. É como se essa paixão fosse uma pequena chama que tenho dentro de mim, que me mantém em movimento e que preciso de nutrir. Um dia sem degustação é inimaginável para mim. Preciso dessa explosão sensorial, de discutir com a minha equipa e de sair para a vinha.

A Perrier-Jouët tem um legado com mais de 200 anos. O que teve de aprender antes de integrar a Maison?

Quando entrei para a Maison, estive dois anos a trabalhar com o meu antecessor. Hervé Deschamps fez parte desta casa durante 37 anos e, por isso, era a pessoa ideal para me transmitir não só a história da casa como também o seu know-how sobre a Chardonnay, a variedade de uva que é a assinatura da Perrier-Jouët. Passamos horas juntos a degustar alguns dos vinhos mais antigos das adegas para compreender o seu estilo e origem.

O que aprendeu com esta experiência?

Foi muito importante para mim ter esta experiência antes de misturar os meus primeiros cuvées. O champanhe Perrier-Jouët tem um estilo floral intrínseco, muito único e especial e com uma consistência impressionante desde 1811. Por isso, tive de o conhecer de perto para o compreender e, então, dominar esta assinatura tão singular, centrada em torno do Chardonnay.

Quais são os maiores desafios da atualidade para uma cellar master da Perrier-Jouët?

Como cellar master, sou a ‘guardiã’ do estilo Perrier-Jouët e da sua qualidade superior. Estou presente em todos os processos de produção do vinho, desde a vindima, a produção, o lote e a fermentação, e tento preservar o estilo e as técnicas da casa, trabalhando diretamente com as equipas nas vinhas e na adega, para assim conseguirmos produzir vinhos da mais alta qualidade todos os anos. É claro que, face aos meus antecessores, também procuro acrescentar a minha sensibilidade pessoal aos vinhos.

 A sustentabilidade é uma preocupação para a Perrier-Jouët?

Outra das minhas principais responsabilidades é manter o compromisso de longo prazo da Maison com a sustentabilidade. Pierre-Nicolas Perrier e Rose-Adelaide Jouët fundaram a Maison Perrier-Jouët pelo amor que os unia ao champanhe e à Natureza. Pierre-Nicolas Perrier e o seu sucessor, o seu filho Charles, também foram renomados botânicos. Por isso, desde o início da sua história que a casa tem uma ligação muito próxima com a Natureza, que se encontra hoje patente no estilo dos nossos vinhos e nas nossas práticas vinícolas. Fiel a esta herança, quero fomentar o que foi feito pelos meus antecessores, preservando as nossas terras e não me limitando a adotar novas práticas vitivinícolas sustentáveis, mas também a manter as que já temos no futuro, apostando nos nossos ecossistemas e na biodiversidade que os fundadores tanto prezavam.

Que práticas sustentáveis gostaria de implementar no futuro?

Em Champagne [região vinícola no noroeste de França], sentimos o impacto das mudanças climáticas, à exceção do último ano (2021). As últimas três colheitas começaram em agosto. Há 30 anos, tínhamos 100 dias entre a produção das flores e a colheita, e, hoje, são cerca de 80-85 dias. Além da erosão que existe nos solos, das novas doenças e de muitas outras alterações. Perante esta nova realidade, temos de ser resilientes e temos de nos adaptar. Isto significa adaptar o nosso cronograma de colheita e cuidar do nosso vinhedo de uma forma diferente, com um foco especial nos solos. Mas também temos de ter um papel ativo na luta contra as mudanças climáticas com a preservação da biodiversidade e dos ecossistemas críticos. Temos de voltar a ligarmo-nos à Natureza e, claro, reduzir a nossa pegada.

Que novos projetos gostava de pôr em prática a curto prazo?

Como cellar master da Perrier-Jouët, terei sempre a responsabilidade de manter o estilo único da Maison e tenho muitos projetos. Para mim, Perrier-Jouët tem tudo a ver com Chardonnay. A minha ambição é seguir o trabalho do meu antecessor, levando ainda mais longe a expressão Chardonnay, o seu aroma floral, a sua textura única e elegância em todos os nossos cuvées.

Qual é o segredo que faz do Perrier-Jouët um dos melhores champanhes do mundo?

O segredo de um bom champanhe é criar um que nos faça vibrar, que nos leve a fortes emoções, que nos dê uma sensação de bem-estar e que seja capaz de criar uma comunhão entre a nossa essência e o vinho. Deve ser um grande momento de simbiose connosco mesmos.

Que novidades podemos esperar para 2022?

Tenho muitos projetos guardados para a Maison Perrier-Jouët. O champanhe é uma arte que requer tempo, por isso, temos de ser um pouco mais pacientes. Mantenham-se informados.

Como definiria o champanhe Perrier-Jouët numa única frase?

O champanhe Perrier-Jouët pode ser descrito em três palavras: arte, Natureza e Chardonnay.

Por Sofia Santos Cardoso

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