Camilla Degli Esposti

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“Sinto o privilégio de acordar todas as manhãs e de me dedicar a uma atividade que me realiza totalmente”

A Deckora Design, fundada pela italiana Camilla Degli Esposti em 2017, é um studio que combina a arquitetura com o design de interiores num serviço completo de consultoria, acompanhamento e execução de planos, sonhos e ideias dos clientes para criar espaços absolutamente extraordinários. Depois de Milão e Londres, Camilla encontrou em Lisboa uma nova casa para o studio e tem desenvolvido projetos com um posicionamento high-end para residências privadas e espaços comerciais. Em conversa com a F Luxury, falou do seu trajeto.

Vindo a Camilla Degli Esposti de uma linhagem de arquitetos, sendo a terceira geração da família, desde quando é que começou a dedicar-se à arte e à forma de projetar e porquê?

Lembro-me de passar muito tempo no estúdio do meu pai. Ele estava sempre muito ocupado e estar lá era uma forma de o sentir mais próximo. Ele dava-me plantas antigas para traçar e aguarelas para brincar numa sala cheia de todo o tipo de equipamento técnico.

Na altura os computadores não existiam e era espantoso ver filas de arquitetos deitados sobre as suas pranchetas de desenho durante horas a fio, desenhando com precisão cada detalhe à mão. Eram tempos diferentes, mas cheios de uma energia e de um otimismo incrível.

Oriunda de Milão, de que forma é que esta cidade vibrante serviu de inspiração para a sua arquitetura?

Apenas quando vivi no estrangeiro é que percebi o impacto que Milão e a minha nacionalidade italiana tiveram em mim. A minha cidade natal é o ícone da elegância no mundo, e isto reflete-se em todo o lado: desde a forma como as pessoas se vestem e andam até à forma como põem a mesa, a sofisticação é uma parte intrínseca da cultura local. Como podem imaginar, este ambiente e exercício diário tiveram um impacto profundo no meu estilo que se reflete diariamente no meu trabalho como arquiteta.

Estagiou com o renomado Peter Eisenman e terminou o mestrado na Architectural Association numa das turmas de Zaha Hahid. Como é que estas figuras de renome e outras têm influenciado o seu trabalho?

Peter Eisenman é um grande homem e mentor. Um génio arquitetónico e também um professor que se preocupou profundamente com o futuro e a formação dos seus alunos. Guardo memórias bonitas dos seus ensinamentos de análise formal. De estudar o objeto da arquitetura canónica através de um filtro do pensamento contemporâneo.

Zaha Hadid foi uma personagem muito peculiar que me fascinou pela sua resiliência e tenacidade.

Ambas as figuras são, no entanto, puramente arquitetónicas. Numa fase posterior, quando decidi concentrar-me em design de interiores, as minhas fontes de inspiração foram principalmente decoradores e designers anglo-saxónicos menos conhecidos pelo público em geral mas igualmente talentosos.

Após um tempo a trabalhar projetos de arquitetura, quando é que sentiu o apelo para abraçar a paixão que sentia pelo design de interiores?

Ao considerar a minha mudança de carreira, é importante compreender que, especialmente no sul da Europa e no nosso meio profissional, os designers de interiores não são tão considerados como os arquitetos ou engenheiros. A minha família nunca me teria permitido iniciar este caminho desde o início e tive de provar no terreno que estava determinada a prosseguir com esta escolha. Tudo o que aconteceu desde então tem sido uma aventura fantástica que me permitiu crescer pessoalmente e evoluir como profissional. Sinto o privilégio de acordar todas as manhãs e de me dedicar a uma atividade que me realiza totalmente. No fundo, é um excelente complemento ao trabalho que desenvolvo como arquiteta e permite-me ter uma visão 360o de cada projeto que abraço.

Em 2017, edificou o seu projeto pessoal, a Deckora Design. O que a impulsionou?

Olhando para trás, posso dizer que a minha paixão foi sempre clara, mas quem realmente fez a diferença no meu percurso foi o meu marido. Ele empurrou-me para a frente ensinando-me a base da gestão empresarial e dando-me a confiança necessária para dar um passo tão grande na minha carreira.

Depois de Milão e Londres, a Camilla escolheu recentemente a cidade de Lisboa como a nova casa do studio. O que a motivou a transferir-se para Portugal?

Nunca tive realmente a ideia de me instalar em Lisboa, aconteceu com uma série circunstancial de acontecimentos. Conheci bastante bem o vosso incrível país e a sua capital porque o meu marido é natural de Portugal. No entanto, desde que o conheci, estava ciente de que ele não podia fixar-se em Lisboa a tempo inteiro devido ao seu negócio.

Quando a pandemia começou, no início de 2020, o meu escritório estava estabelecido em Milão após a nossa deslocalização de Londres devido ao Brexit. No início, Itália foi tremendamente atingida ao lidar com a misteriosa doença. O nosso instinto foi voar para Lisboa para encontrar um abrigo seguro em tempos tão imprevisíveis.

Após um primeiro período, decidi estabelecer-me aqui. O meu marido tenta visitar-me com a maior frequência possível e espero realmente que gradualmente ele faça de Lisboa novamente a sua casa.

Primeiro, o Yakuza, a que se seguiu o Sky Bar do Yotel Porto. Que outros grandes projetos tem em vista?

Estamos atualmente a trabalhar em mais dois projetos de hospitalidade em Lisboa que, se tudo correr bem, estarão prontos no outono. Também estou interessada em aprofundar o desenvolvimento de projetos de vivendas privadas. Estamos atualmente a conceber as residências mais fabulosas em Lisboa e no Algarve e esperamos poder acrescentar estudos de caso únicos ao nosso crescente portefólio.

A Deckora Design não trabalha apenas grandes espaços, tendo intervindo num apartamento clássico no Chiado e numa penthouse de luxo na Lapa. Como se processa o seu trabalho de criação?

Os nossos conceitos são profundamente fundamentados na investigação de design e numa avaliação técnica preliminar. Primeiro, desenvolvemos o esquema arquitetónico e a configuração espacial. Numa fase posterior, concentramo-nos nos detalhes, desafiando limites e criando uma proposta abrangente. É como uma orquestra, existe uma hierarquia bastante rígida a respeitar para se obter uma verdadeira obra de arte. Contudo, há sempre um lado intuitivo e mais empírico em cada processo criativo. Por exemplo, a moda, a arte, o cinema e especialmente as viagens são para mim grandes fontes de inspiração. Eu procuro objetos em todo o mundo – em antiquários, casas de leilões, galerias de arte ou diretamente junto de artistas contemporâneos emergentes. Os nossos talentosos artesãos também desempenham um papel crucial durante o processo criativo. A exposição diária ao seu trabalho e técnicas de produção tem um grande impacto nos nossos designs e, portanto, no artefacto final. O design é um trabalho coletivo e multidisciplinar de amor.

Num outro registo, lançou, em 2021, a coleção de mobiliário Olympus, com 12 peças de edição limitada. Como surgiu esta oportunidade de conciliar o saber-fazer português com a sua visão italiana?

Concebemos praticamente todos os artigos de mobiliário para os nossos clientes, tornando cada projeto uma autêntica experiência à medida. Em Portugal, este processo permitiu-nos iniciar colaborações sinérgicas com artesãos locais no norte do País.

O mercado de produção de mobiliário português, apesar de ser bastante diferente do inglês e italiano, tem grandes vantagens de preços competitivos e a possibilidade de fazer todo o processo verdadeiramente à medida. Aprecio especialmente os trabalhadores locais de madeira e os fornecedores de pedra, que são conhecedores e nos fornecem materiais de muito boa qualidade.

Que projeto mais gostou de executar? E qual o que sonharia desenvolver?

A África do Sul tem um lugar especial no meu coração. Passei algum tempo na Cidade do Cabo em 2018 para dois projetos residenciais, ajudando o cliente localmente. Desejo voltar para lá com a minha família assim que as circunstâncias globais mo permitam. Dois projetos peculiares que gostaria de desenvolver mais nos próximos anos são um interior de iate privado e o design de um hotel emblemático em Lisboa. Ambos são esquemas muito diferentes, mas igualmente desafiantes, com os quais ficaríamos encantados de poder trabalhar.

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