Oitoemponto: “Somos uns contadores de histórias”

Artur Miranda e Jacques Bec. Dois nomes que dispensam apresentações. Quase a completar 30 anos de um percurso profissional rico – e que a tantos tem enriquecido -, os fundadores e mentes criativas da Oitoemponto contam-nos, como sempre, uma boa parte da sua história. Não marcámos às oito em ponto, mas às doze, no Hotel Ritz de Lisboa, a sua ‘casa’ na capital, que agora vê boa parte dos seus interiores revisitados por esta dupla que não cessa de nos surpreender.

Isabel Figueiredo

Ritz Four Seasons, Lisboa / FAD
Chateau Saint Maur; Francis Amiand
La Maison du Caviar; fotografia de Jerome Galland
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Contam-nos estar a atravessar “uma fase espetacular”, a chegar quase aos 30 anos da Oitoemponto. “É uma loucura, 30 anos é uma vida! A lutar por uma história que não era de todo evidente, porque aparecemos vindos do nada, numa terra já com muitas tradições, muitos decoradores, muita história”, lança, para início de conversa, Artur Miranda, impecável no seu blazer preto, gesticulando, com um olhar que brilha e sorri. Estamos à mesa do bar do Ritz Four Seasons Hotel Lisboa – que melhor cenário! -, a sua casa em Lisboa, e que agora habitam com alguma regularidade desde que aqui iniciaram os trabalhos de renovação dos seus quartos.

Para contar a história do princípio… como começa a vossa relação com o mundo dos interiores?

AM – A Oitoemponto começa de uma maneira muito peculiar. Tenho uma formação de arte global, mas comecei na Moda. Quando fui convidado para ser relações públicas de uma discoteca no Porto, na época muito conhecida, o Cais, no final dos anos 80, eu disse, ‘sim, senhor, eu faço a história, mas com uma condição: vamos fechar este capítulo, vamos tentar esquecer este passado incrível, mantemos o nome, que é sonante, encerramos, redecoramos de uma maneira totalmente diferente e reabrimos’. Começa aí a minha relação com a decoração, ainda sem a presença do Jacques, que nessa altura morava em Paris e desenhava relógios.  

Foi uma brincadeira muito séria…

AM – Levo tudo muito a sério! Como sempre levei. Para esta aventura no Cais fui fundo, ao mais ínfimo detalhe, da apresentação irrepreensível do pessoal ao décor, que era alternativo. E as pessoas começaram a vir ter comigo. … Estamos no final dos anos 80, quando começa aquela loucura das marcas a chegarem a Portugal, caso da Dolce&Gabbana e de tantas outras. Daí passo para os showrooms das marcas de moda, e dos showrooms para as lojas, porque toda a gente começa a querer ter boas lojas. E das lojas, para as casas dos donos destas lojas. É aí que o Jacques aparece.

A história começa agora, e não parece ter um fim à vista…

AM – Esta é uma história evolutiva do mundo. Eu não tinha qualquer tradição no setor. Digamos que não tinha legitimidade para trabalhar neste métier, que era muito fechado – no início dos anos 90, o mundo dos interiores em Portugal era constituído por meia dúzia de nomes, era um mundo intocável, e estes eram quase todos de Lisboa. Mas quando encontro o Jacques em Paris, e ele entra nesta aventura comigo, damos por nós totalmente absorvidos por esta loucura de fazermos espaços um bocadinho diferentes.

JB – Sempre acreditámos que Portugal tinha de estar no mundo. E sempre desejámos essa internacionalização. Quisemos utilizar materiais que, na altura, eram pouco vistos, caso do betão, de materiais alternativos, décors alternativos.

Essa noção foi cultivada, mas também tinha a ver com a vossa sensibilidade.

AM – É-nos inato, mas também é fruto da curiosidade e da formação. Estive em Paris numa escola de Arte – e já havia passado pela Árvore, uma escola artística e profissional muito abrangente, no Porto. Além disso, fizemos vários cursos e formações, nomeadamente o curso que vinha de um modelo americano do Rochester Institute of Technology, e aprender com um método americano não é fazer bem, é conseguir convencer que o dos outros é mau. É um bocado subversivo, mas para mim teve muito impacto. E é uma verdade que se isto for bem levado, é um motor de força.

JB – Com o método americano há sempre tempo para refazer, para repropor, e esse método ainda hoje é a nossa base. Colocamo-nos sempre em xeque a nos próprios, questionamo-nos. O Artur está sempre por trás de mim a olhar para o que faço. Podemos sempre melhorar, nunca estamos contentes. O nosso sucesso vem da total consciência de uma aprendizagem contínua, de desmitificar aquela noção do gosto. Até porque o nosso métier não é ter bom gosto, é aproximarmo-nos do gosto do cliente.

AM – Temos de ser excecionalmente técnicos. É como entrar na casa do cliente e imediatamente identificarmos o que é necessário. Criamos uma intimidade com o cliente muito grande, seja ele privado ou corporate. O nosso trabalho é esse, é chegar perto da pessoas, é saber o que o cliente quer mostrar, esconder, comunicar na sua casa, como quer viver. E nós adaptamo-nos. É o nosso treino diário que facilita esse approach. Não fazemos um projeto para nós, fazemo-lo para as pessoas.

Mas, então, esta noção do estilo, do gosto… onde fica alojado no vosso trabalho?

AM – Nunca quisemos ter um estilo! E o gosto é como o conforto, que não é o mesmo para toda a gente. Eu tenho um comprimento de perna que, uma vez sentado numa cadeira, pode ser confortável, mas para outro será desconfortável.

JB – Veja-se uma cadeira desenhada pelo Shiro Kuramata, pode ser linda, é uma escultura, mas não é nela que o cliente vai ver televisão. É por isso que o nosso métier também é educar as pessoas, saber até onde podemos ir, e onde parar, é um jogo muito interessante e é por isso que o core da nossa atividade é a parte humana.

AM – É um jogo espetacular que nunca é igual. É quase como um namoro. Há sempre um interlocutor que, em determinado momento, é mais aberto, atrevido, há outro que se ‘pendura’ na opinião do parceiro ou parceira, e esta dupla pode ser excecional, porque cria uma sinergia de movimento. Um defende o outro, e vice-versa, para tentar defender as suas ideias e sensibilidades. Quando fazemos uma casa, estamos a projetar o futuro, mas também pode ser explosivo, porque as vontades do casal são diferentes…

O vosso trabalho assenta nesta ligação muito próxima com o cliente. Como é entrar na intimidade das pessoas?

AM – Nós acabámos com as tipologias das casas, porque são feitas segundo a bitola normal, mas os clientes não vivem segundo essa bitola, podemos ter clientes em que a casa-de-banho é um santuário, e outros para quem o closet é um espaço fundamental… é um bocado intrusivo, mas bastam-nos três minutos depois de os conhecermos, e de entrarmos no seu quarto para ver como dormem – se dormem mais juntos ou mais afastados -, ou na casa-de-banho para vislumbrar a sua interação… Mas a verdade é que as pessoas deixam-nos entrar no seu mundo. E não há ninguém que avance com tanta rapidez na intimidade das pessoas como nós. É fascinante. É quase um debate e tem uma componente de psicologia muito importante.

JB – Os casais podem ser extremamente coniventes e, noutros casos, a nossa presença, e o facto de começarmos a colocar questões, pode ser motivo de discussão, mas este jogo é cativante. Por outro lado, atraímos casais com vidas muito ativas, em que ambos trabalham – advogados, médicos, engenheiros…, como tal o nosso tipo de cliente não quer perder tempo a discutir a cor das almofadas. É um cliente muito rotinado, que sabe como funciona, e que está a pagar um serviço e a economizar tempo. Não vai discutir detalhes. O nosso trabalho consiste em dissecar as conversas, em captar a confiança. É uma direção artística.

O vosso atelier está sediado no Porto. Para quando uma extensão a Lisboa?

AM – É um facto que é no Porto que reunimos todas as condições, somos já 35 pessoas no atelier. Mas também é um facto que no mundo atual tínhamos de ter uma âncora em Lisboa, e que melhor lugar do que no Ritz, que melhor montra. O nosso hotel! Por isso, temos aqui uma pequena loja, um caixa de joias, onde temos à venda os nossos livros e os perfumes da casa – somos os representas exclusivos de Frédéric Malle  -, com os quais equipamos as casas das pessoas.  

De Portugal para o mundo e de novo para Portugal. O que aqui vos traz de novo?

AM – O nosso trabalho divide-se atualmente em 50/50. Metade português e internacional. Porquê não sei. As pessoas lá fora sabem muito mais sobre nós do que aqui em Portugal. Decidimos que queremos ser conhecidos como uma empresa portuguesa, é importante que as pessoas saibam que estamos tão ativos aqui em Portugal.

A hotelaria terá algo a ver com esta aproximação?

AM – Sempre estivemos muito fora da parte da hotelaria. O nosso drive é a relação com as pessoas e ao fazermos trabalhos para espaços públicos perdemos um pouco essa ligação humana. Fizemos algumas coisas para amigos, caso do Monumental Palace Hotel, no Porto, que é de um amigo. E que é ‘o’ hotel no Porto! Sem modéstia alguma. Abrimos um pressuposto, fizemos hotelaria de luxo, que era inexistente no Porto. Reinventámos uma história. O hotel virou uma referência – era uma pensão nos anos 30, depois fechou, mas ficou a fachada, que se manteve neste processo de reinvenção.

JB – O hotel é uma viagem às artes decorativas. Falámos com o Mário, na época seu proprietário, sobre isso, porque as pessoas querem um hotel que lhes conte uma história, a da cidade, uma história que seja diferente. E o Monumental conta a história da cidade dos anos 30 e 40, anos ricos no Porto.

AM – O processo correu bem, o nosso amigo vendeu o hotel e fomos contactados a seguir para o processo de remodelação do Ritz, uma relação antiga. Conhecemos toda a gente aqui, é a nossa ‘casa’ em Lisboa, somos apaixonados pelo Hotel… mas havia ainda muito que ponderar, foi difícil agarrar a confiança de toda a equipa, de todos os envolvidos. Finalmente, mais tarde, fomos chamados por grande insistência da Four Seasons. E aqui estamos.

Hotel Ritz Four Seasons, Lisboa; FDA

O que está ser feito no Ritz Four Seasons Hotel Lisboa?

JB – O nosso projeto é denso, mas tem uma ar de curadoria. Os quartos do Ritz voltaram 60 anos atrás, fomos ver tudo, descobrir candeeiros e cadeiras antigas, fomos à procura da sua alma e história. A nossa proposta assenta na discrição, mas com a nossa assinatura. O Ritz é mais forte do que nós. 

AM – Recuperámos muitos móveis, devolvemos a alma ao Hotel, sem prejuízo da contemporaneidade. O trabalho é grande – já fizemos duzentos quartos, e ainda nos faltam 90.  

JB – O nosso trabalho é tão discreto que está apenas nos quartos e não nas zonas sociais… é uma experiência espetacular, a de recriar a alma de outrora, dos anos 50. Além disso, aproveitámos os móveis antigos, reprodução do século 18, para fazer três suítes que os clientes podem reservar para aniversários e outro tipo de eventos, todos com os tecido da Fortuny, com as boiseries à boa maneira do Ritz, naturalmente com as peças redimensionadas, e foi ao recuperar a beleza daquela época que percebemos a nossa capacidade de contar histórias em grande escala, agradando a todos os tipos de público que aqui vem, sobretudo os mais jovens que mostram apreço pelo ar lofty destas suítes. 

Qual é o feedback ao este trabalho desenvolvido no Ritz Four Seasons Hotel Lisboa?

AM – É incrível, há quem diga que isto é um case study. Estamos muito felizes.

O que há de novo fora de fronteiras?

AM – Fizemos um restaurante para os irmãos Costes em Paris, a Maison du Caviar – que era um dos restaurantes do Karl Lagerfeld, e uma instituição -, uma joalharia em Paris, a Godechot Pauliet na Avenue Victor Hugo, que alojou antes uma grande loja Zara, fizemos ainda, em pleno Covid, uma loja para a Berluti em Nova Iorque, tudo via Zoom – nunca julguei possível, mas teve de ser – e estamos a fazer um clube privado de caviar em Londres, a Caviar Kaspia. Estamos com uma agenda cheia.

Já desenharam um papel de parede para de Gournay, e o mais vendido de sempre até hoje, finalizaram recentemente os interiores de um barco de luxo… Onde se veem em breve?

AM – Não sei, acho que não queremos saber…. passaram quase 30 anos. Até já fizemos barcos (risos), com efeito. Um já está no mar. Foi inaugurado em agosto deste ano. É um navio cruzeiro de luxo com 100 cabinas, fruto da visão do Mário Ferreira, que depois de vender o Monumental Palace Hotel decidiu investir numa empresa de barcos que fazem viagens por todos os mares. É outra aventura. Um bocadinho Manhattan way. E já estamos a fazer o segundo, que designámos La Dolce Vita, porque o barco é todo azul, branco, com madeiras.

Onde estão a ser construídos estes barcos?

AM – Em Portugal, em Viana do castelo. Trata-se de uma joint venture entre a Mystic Cruises e Atlas Ocean Voyages (americana) e esta história conjunta navega no mundo inteiro com os nossos interiores.

Fotografia: Francis Amiand in Château Saint Maur

A diversidade é ponto assente, e a grande escala, a nível particular, também ocupa um lugar no vosso portfólio. O mundo pertence-vos?

AM – A esse nível estamos a trabalhar para a Arábia Saudita, num projeto particular de uma dimensão indescritível, com 200 mil m2, tudo emoldurado por palmeiras… Começámos pela pool house e vamos avançando pela propriedade. A este soma-se um apartamento muito bonito em Moscovo… Também fizemos um castelo, uma aventura espetacular, foram cinco anos de obras em que recuperámos o edifício na íntegra. Sai um bocadinho fora da zona de conforto da Oitoemponto, mas é a nossa proposta de como se pode viver num castelo.

JB – Somos um bocadinho exóticos aos olhos dos outros, um português e um francês, parceiros nos negócios e na vida. Somos globe trotters, mas somos portugueses. Hoje em dia não temos paciência para muita coisa, estamos muito fora do circuito e somos severamente penalizados por não estar em Lisboa. Poderíamos ter muito mais trabalho na capital se tivéssemos mais proximidade… a idade passa, a paciência esgota-se. Ganhamos tanto em sabedoria como perdemos em paciência. As pessoas acham que somos muito snobs, coisa que não somos nada – só queremos quality time, o nosso sofá, roupa confortável e ver a Netflix. No fundo, é aqui que nos vemos melhor. Hoje ou daqui a mais trinta anos.

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