Edgardo Osorio, a mente criativa da Aquazzura

A marca, que está a ponto de celebrar dez anos de sucesso, prepara-se para alargar a sua criatividade e visão a outras áreas do lifestyle, entre elas os interiores. Para breve, uma coleção de tableware. E nos próximos cinco anos, mais projetos que abraçam o maravilhoso mundo inspirado,  inspirador, da Aquazzura. Falámos com o seu co-fundador e diretor criativo.

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Por Isabel Figueiredo

Edgardo Osorio, diretor criativo da Aquazzura e co-fundador da marca, com Ricardo d’Almeida Figueiredo, fala com a F Luxury durante uma curta viagem de carro. Não estamos cara a cara, separam-nos vários quilómetros de distância, entre Lisboa e Itália, mas sentimos uma proximidade rara, que não acontece sempre. Daquelas que se sente quando o nosso interlocutor fala e sorri com os gestos, com os olhos. Porque exprime paixão, acima de tudo, pela vida e pelas pessoas.

“O nome ‘Aquazzura’ é inspirado no amor de Osorio pelo mar e, em particular, pelas águas cristalinas da ilha de Capri. As suas criações evocam uma nova ‘Dolce Vita’, profundamente ligada ao artesanato italiano com um toque contemporâneo inconfundível”, assim lemos na página oficial de uma das marcas mais adoradas do momento e do mundo quando o assunto é… calçado. Saltos vertiginosos, sandálias flat, aplicações, silhuetas delicadas, cores e materiais… tudo converge para um resultado que, desde o primeiro momento arrecadou elogios e até hoje soma sucessos. Não temos dúvidas de que estas são inestimáveis fontes de inspiração porque, ao longo da nossa conversa com Osorio, apercebemo-nos da sua sensibilidade e humildade em relação ao que é belo, majestoso, puro e genuíno. A conversa faz-se em espanhol, porque é a sua língua mãe – Edgardo nasceu na Colombia -, e é tão cantada a forma como o faz, com aquele timbre doce de um sul-americano… É certo estarmos na presença, mesmo que separados pelo ecrã, de uma mente criativa e de um ser humano especial.  

As passagens por Miami e Londres, as experiências académicas nas London College of Fashion e Central Saint Martins, e profissionais, para assinaturas como Ferragamo e Cavalli, entre outros nomes de peso, associadas à sua paixão pelo design e pelo artesanato, pelo contacto com as várias culturas e processos, pelas viagens, estão na base de criações únicas. Desde os primeiros lançamentos com a assinatura Aquazzura que o reconhecimento internacional foi imediato. Vistas nos mais luxuosos department stores, como Barneys New York ou Bergdorf Goodman, nas plataformas como Net-a-Porter ou Matchesfashion, nos pés de celebridades, influencers e elementos da realeza, cada peça de calçado Aquazzura é alvo de destaque. As coleções feitas em parceria, nomeadamente com Poppy Delevingne, Olivia Palermo e Claudia Schiffer, têm vindo a contribuir, ainda mais afincadamente, para um sucesso ao nível estelar.

Que qualidades um diretor criativo deve ter para alcançar o sucesso?

Ser criativo (risos). Para mim, este é um trabalho de paixão e uma das capacidades mais importantes de um diretor criativo é saber comunicar o que tem na sua cabeça, porque o nosso trabalho depende de outros. Podemos ser o melhor do mundo, mas se não estivermos rodeados de uma boa equipa de artesãos, de quem sabe fazer e executar, se não soubermos comunicar, de pouco vale. Outra qualidade é o carisma para saber comunicar e, claro, sempre a humildade. Por fim, ter a capacidade de fazer algo que não se estuda, que é saber o que a pessoas querem antes que elas próprias o saibam. Ler e interpretar o momento. É uma arte, porque não podemos estar nem muito adiantados nem muito atrasados – ou perdemos o barco -, de modo a que nesse momento, histórico, o que queremos oferecer seja precisamente aquilo que vai funcionar. É a habilidade de ler o momento. E isso, no final do dia, é muito especial e para mim talvez o mais importante. Criar um objeto de desejo. Entrar numa loja, ver no Instagram ou numa página de uma revista algo que nos move, que provoca um pensamento: ‘you have to have it’. Quando criamos algo que mexe com os sentidos, que desperta emoções, que nos faz desejar ter… bom, essa é uma das qualidades mais importantes que podemos ter como designer.

O que significa hoje a moda para si?

Pessoalmente, a moda é a forma como nos representamos, e comunicamos o que somos ou queremos ser para o mundo. A moda é uma ferramenta que nos faz escapar do mundo real. É um getaway. Quando desenho, estou a criar um escape da realidade e a oferecer o meu sonho a alguém. Que possa usar, vestir e transformar… porque o incrível da moda é que tem a capacidade de transformar. Sapatos que fazem sorrir e que transportam a outro lugar. Quando compramos uns sapatos para ir de férias, já estamos a caminho. Por isso fiquei tão surpreendido quando, em plena pandemia, começámos a vender sapatos com cristais, saltos altos, borboletas… porque as clientes já estavam a planear as festas, os jantares, as férias. No fundo, elas estavam a comprar formas de escapar-se com os seus sapatos.

Quem são as suas maiores influências dos mundos da arte e do design?  

Não tenho necessariamente pessoas em particular que me influenciam. Sou influenciado por tudo. Pela arte contemporânea, que adoro, pelas artes performáticas; sou um apaixonado dos interiores, das antiguidades, do design… Todos os fins de semana, no meu tempo livre, visito mercados de arte, galerias, vou a leilões, e faço isso em Itália ou o México ou na Colombia. Onde for. Da mesma forma, sou um apaixonado pelo artesanato, porque este define verdadeiramente uma cultura e porque nos aproxima mais do ser humano. Faz-nos mais humanos. Adoro descobrir as diferentes técnicas e processos e gosto de fazê-lo nos meus contactos com os vários artesãos. De ver que tipo de artesanatos especiais existem e isso, sim, influencia o meu trabalho. Na arte, gosto de observar as conjugações de cores, de como Velásquez e Goya, recordando uma visita ao Prado, as combinam com as texturas dos vestidos e fico fascinado pela forma como funcionam, porque o que para mim poderia não ser lógico ou possível, é-o para outros. E isso vemo-lo na Índia, no México… Toda aquela explosão de colorido. ‘The eye has to travel’, disse Diana Vreeland. Quando viajamos, cultivamos memórias. Da mesma forma, adoro comprar livros, de consumir informação por isso as minhas coleções nunca são uma só coisa, são várias. Um potpourri de referências.

Onde se vê daqui a cinco anos?

A marca vai fazer dez anos em 2022 e foram necessários esses dez anos para levar a Aquazzura a outros níveis. Sempre acreditei que a Aquazzura seria um selo de lifestyle, não só de sapatos mas de todo o tipo de acessórios, de peças para a casa, um café, um hotel… um aroma. Como tal, estes próximos cinco anos serão consagrados à sua expansão. São anos em que nos preparamos para lançar uma coleção de casa. O interiorismo é algo que me apaixona tanto como a moda e é um mundo que me diz muito e que quero explorar. Estamos a começar com tableware e tabletop, mas quero desenhar móveis, e também sapatos de homem, acessórios, perfumes para a casa e para uso pessoal, eyewear… Gostaria que o cliente pudesse entrar num hotel Aquazzura e ter os lençóis, as loiças, os acessórios, até o aroma com o nosso selo.

O que retirou da crise pandémica e de que forma ela mudou a forma como vê hoje o design de calçado e o seu fabrico?

Estes últimos tempos levaram-me a apreciar muito mais cada momento, a tirar partido de cada instante, porque muitas vezes damos as pessoas por garantidas. É importante apreciar as coisas mais simples, as amizades, o amor…. e desfrutar cada momento porque não sabemos o que irá passar-se amanhã. Temos de aproveitar o hoje e gozar a vida e o trabalho ainda mais. E ter tempo para pensar, para criar, para saber o que queremos… estamos sempre a correr, à pressa, sem tempo para nos sentarmos e pensarmos no que realmente queremos e no que realmente nos faz felizes.

Entrevista publicada na edição #26 da revista F Luxury

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