Hermès, Women’s Fall/Winter 2021

A coleção e a performance

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A atmosfera é de mistério radiante, de poder, há uma certa aura. Autênticas cavalières, se não mesmo amazonas, as mulheres Hermès provam não se ater à rotina. Permanecer imóvel é puramente abstrato. É urgente viver novamente, aventurar-se no desconhecido, ganhar um novo fôlego. É um momento de reconstrução: ainda há muito a ser explorado, a começar pela feminilidade, conceito que mudou muito nos últimos anos.  

Triptych, o desfile e a live performance inédita da Hermès, que em três atos e em três cidades diferentes em simultâneo atravessa o mundo e nos leva numa viagem de descoberta da nova coleção FW21, foram apresentados este fim de semana e a F Luxury levanta a ponta da cortina.

performance Triptych ato 1 começa em Nova Iorque, no The Armory, com uma dança coreografada por Madeline Hollander, passando logo para o ato 2, com o desfile principal no local onde Nadège Vanhée-Cybulski, a diretora criativa da Maison francesa, realizou o seu primeiro desfile em 2015, na Garde Républicaine, em Paris. O terceiro ato leva-nos numa viagem até à flagship da Hermès em Xangai, terminando com mais uma coreografia, desta vez pela talentosa Gu Jiani.

Tecidos, padrões, movimento

A coleção é uma expressão do desejo de explorar a sensualidade de novas mitologias. O padrão xadrez funciona como uma pintura que vai direto ao ponto, com um gesto tão puro e simples como o de adornar a forma humana com retângulos. Peças adequadas tanto para a vida noturna como para a vida quotidiana; opostos que já não se opõem; as contradições voam pela janela à medida que as classificações desaparecem no jogo de tecidos e pregas. Uma Clou Médor abre e fecha um fecho; um fato é cortado em estilo parka, ignorando as regras de alfaiataria.

O anoraque acolchoado faz aqui uma aparição e, embora existam calças, são calças de ciclismo. Mas também há jaquetas, casacos e ponchos com lenços integrados que abraçam e protegem, para se sentir forte, sem nunca atrapalhar os movimentos. Algo para vestir enquanto leva o presente na desportiva.

Como fazer um desfile de moda no mundo de hoje

Quando os tempos são desafiadores, devemos desafiar os nossos próprios hábitos. E estar à vontade para nos ligarmos e unirmos a outras cidades, outras culturas. Queremos tentar ser criativos juntos – embora à distância. Ousemos fazer o que sempre fizemos com paixão: iniciar um diálogo com outras formas de arte. Vamos inovar; vamos produzir o que só pode ser chamado de tríptico.

Mais do que um desfile de moda, uma performance viva, em três atos.

No centro desta performance de três partes está um desfile de moda em Paris, na Garde Républicaine, transmitido ao vivo em vários meios de comunicação. O “prólogo” passa-se não em Paris, mas em Nova Iorque, no Armory Show, onde a coreógrafa Madeline Hollander começa com uma interpretação livre dos movimentos colhidos da coleção de Nadège Vanhée-Cybulski.

No encerramento do desfile em Paris, o desfile passa para Xangai, onde os dançarinos, sob a direção da coreógrafa Gu Jiani, concluem o tríptico, injetando de energia e força renovadas a coleção.

Dar vida às roupas, tornando-as nossas. Dançar uma coleção para infundir outros corpos, outras cidades, com movimento – mesmo depois do espetáculo terminar. Será que estes três momentos, em diferentes partes do mundo, evocam uma nova mulher? 

Por último, e para preservar este projeto utópico (o que poderia ser mais utópico do que a moda?), foi pedido a Sébastien Lifshitz – um cineasta que cruza géneros, mergulhado na dança e na moda modernas – para filmar as últimas fases da conceção do tríptico.

De Nova Iorque a Paris, de Paris a Xangai, três formas diferentes de dar vida às roupas por meio do movimento. Três abordagens singularmente diferentes, criando uma sequência.

Que maneira mais satisfatória, em 2021, de habitarmos o mundo juntos?

MADELINE HOLLANDER

Este tríptico acontece em tempos invulgares. Poderia descrever a sua reação quando a Hermès a abordou para criar uma coreografia para esta coleção?

Madeline Hollander: Trabalhei com a Hermès em fevereiro de 2020, num evento para o qual compus uma coreografia baseada no lenço de seda. Socorri-me dos gestos da nova técnica de produção de padrões frente e verso, um processo extraordinário cujos movimentos desconstruí. Fiquei impressionada com o movimento das roupas usadas pela primeira vez. Tinha de encontrar dentro do tríptico o equilíbrio entre gesto, movimento, passos e coreografia necessários para um diálogo natural e orgânico.

Depois disso, Nadège e eu discutimos os tecidos, e a quantidade incrível dos mesmo na sua coleção, mas também a sensualidade de certas texturas, de certas cores.

O seu trabalho sempre dependeu de observação minuciosa?

M H: Encontro inspiração nos movimentos da vida quotidiana. Esses movimentos expressam uma realidade que exploro por meio da observação, análise e dissecação. A maneira como as pessoas andam na rua, atravessam a rua… Faço um estudo e uma abordagem quase científica para este tipo de coisas.

Logo, a sua coreografia é baseada na vida quotidiana. Um desfile de moda é coreografia?

M H: Sim, sou fascinada pelo forma de caminhar das pessoas. Ao deter-me num certo tipo de passo, o meu trabalho arranca! Há em cada desfile o potencial de extrair um determinado tipo de passada e assim utilizá-la como ponto de partida para uma coreografia. Mas para este projeto em particular, não tinha bem a certeza, nem Nadège, se deveríamos usar o desfile como inspiração ou não, já que este viria depois, na sequência de Paris. E quanto mais Nadège e eu trabalhávamos, mais entendia que ela estava especialmente interessada em Nova Iorque. Este projeto foi também, para mim, a oportunidade de trabalhar com dançarinos profissionais, eternos fornecedores de graça através do movimento. E as roupas aqui desempenham um papel interessante, porque quando uma modelo veste algo, não se move da mesma forma que quando uma dançarina usa a mesma peça. Os dançarinos acrescentam outra coisa, talvez algo mais amplo… 

NADÈGE VANHÉE-CYBULKSI

Quando estava no processo de montagem deste tríptico, que desempenhou papel Nova Iorque? 

Nadège Vanhée-Cybulski: Para Xangai, havia uma atração pela tradição, mas para Nova Iorque não tinha uma ideia precisa. Estava interessada na obsessão de Madeline por gestos. E pensei que seria a forma perfeita para abrir o tríptico, além disso estava curiosa para ver de que forma ela interpretaria a coleção. É interessante ver o que Madeline faz com uma peça de roupa: para ela não é uma peça de roupa no corpo, mas um movimento renovado. Interesso-me pela relação entre roupas, corpos e atitudes; é nisso que penso quando começo a desenhar uma nova coleção. Fiquei particularmente fascinada com uma das coreografias de Madeline, “52 Final Bows”, que foi a inspiração para as cortinas. A minha colaboração com Gu Jiani foi baseada no físico, mas a abordagem de Madeline é mais teórica: a base conceptual do projeto e a sua estrutura são efetivamente reveladas no seu trabalho. Ela foi a parceira ideal para a abertura. 

A diferença entre essas duas abordagens inspirou a coleção durante o processo de realização da mesma. Ambos os artistas receberam carta branca? 

N V-C: Não exatamente. Tínhamos algumas regras básicas em relação a cores, que não podiam ser alteradas. Quanto às roupas, tanto a escolha como a interpretação permaneceram completamente em aberto. Estava mais interessada no que as duas coreógrafas poderiam dar-me, não no contrário … Respondemos ao trabalho de Madeline em estilos de passo, com plissados ​​e vestidos com babados e saias em georgette que permitem movimento, com pregas ecoando nas cortinas. Cada um dos momentos deste tríptico tem a sua própria vida, a sua própria identidade; são verdadeiros momentos de criatividade. É aqui que está a omnipresença que referi. 

Quão predominantes foram as cortinas nas vossas discussões? 

N V-C: No início, falámos sobre “Twin Peaks” de David Lynch: uma sala vermelha com cortinas vermelhas separando dois mundos. Uma sala de cinema com a tela separada num espaço fechado. Mas já não existem cortinas nas salas de cinema, o que é uma pena, embora ainda as encontremos em casas de teatro tradicionais, por isso decidimos focarmo-nos isso para a encenação. As cortinas simbolizam promessas. Todos queremos saber o que está por trás da cortina; é irresistível. As cortinas também são elementos divisórios para as mulheres, há muito tempo. E é por isso que estas cortinas são espetaculares e misteriosamente íntimas.

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