O primeiro pecado

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Em boa verdade, o primeiro e o terceiro: para se bem pecar pela gula, não teremos afinal de pecar também pela luxúria? Se estes pecados contam mesmo para castigo eterno, este artigo é um roteiro para a perdição.

Por João GS

Jiang-Nan Chun

O nome deste restaurante para si é chinês? Não se aflija, é mesmo, para mim também era – até pelo simples facto de localizar-se na distante Singapura. Mas pedi a um amigo nativo que encontrasse a sua melhor tradução, e o resultado tem tanto de oriental como de encantador: “A Primavera ao Sul do Rio Yang Tzé”. 

O Jiang-Nan Chun tem, assumidamente, o espírito Singapura: o melhor da tradição do Extremo Oriente combinado com apontamentos clássicos europeus. Este leitmotiv faz com que toda a gente, mesmo toda, venha de onde vier, seja conquistada pelo espaço, um cruzamento inteligente entre o exótico distante oriental e um fino traço das Arte Nova/ Art Déco ocidentais.

No prato, porém, contamos apenas com a mais alta escola da cozinha cantonesa, tão exótica, tão do lado de lá do mundo, mas ao mesmo tempo tão correta e atraente para os nossos pobres e nem sempre sensíveis palatos ocidentais. Ao almoço, na tradicional e venerada experiência do almoço ligeiro (imaginem, ligeiro!) chinês, a componente principal é o tradicional ‘dim-sum’, uma variedade de pequenos e diferenciados pratos, numa tradição extremo-oriental que conta com mais de 1000 anos de vida. Para o jantar, o Jiang-Nan Chun oferece uma carta com centenas de entradas, todas como que retiradas de um menu oferecido pela Imperatriz Viúva aos seus últimos mais estimados ministros.

O Jiang-Nan Chun é o ‘trophy restaurant’ do Four Seasons de Singapura, na vibrante Orchard Road, uma das artérias mais concorridas da cidade.

Jiang-Nan Chun – Four Seasons Singapura
190 Orchard Boulevard, Singapura

Le Monumental Palace

Entre a decisão de transformar a tão decadente Pensão Monumental num hotel de luxo e a sua concretização passaram-se anos, quase uma década, entre guerrilhas negociais e mudanças de promotor. Em 2019 abriu, enfim, o Le Monumental Palace, que graças aos céus manteve aquela traça de sempre, tão Gotham City, que nem a decadência da velha Monumental lhe roubara, bem pelo contrário.

O Le Monumental Palace é agora parte da prestigiosa rede internacional Maison Albar Hotels e, para além de todos os luxos esperados, oferece ao palato três formas de prazer: no restaurante Le Monument – já premiado com um Prato Michelin – o chef Julien Montbabut tempera com a sua escola francesa pratos tradicionais portugueses.

O chef Olivier da Costa, o derradeiro enfant terrible da alta cozinha portuguesa, traz ao Monumental o espaço gastronómico Yakuza, onde segue a linha que o caracteriza desde sempre, de vanguarda, audácia e trendy.

Finalmente, no La Mezzanine, onde a atmosfera se quis mais cool, mas nem por isso menos sofisticada, servem-se brunches e refeições mais ligeiras e familiares.

Le Monumental Palace
Avenida dos Aliados, 151, Porto

Via Graça / 9B by Via Graça

Quem habita na capital ou conhece bem o bairro da Graça terá, seguramente, boas lembranças da abertura do icónico Via Graça. Era, na época, o polo de atração, um sítio desenhado ao gosto daqueles tempos, onde só entrava a nata dos artistas e das estrelas pop, e sentia-se a reverência e o desejo de entrar que só se sentia com A Maçã da Ana Salazar, na Rua do Carmo. Trinta e dois anos após a inauguração, o Via Graça reabre, com a mesma vista deslumbrante, no mesmo spot carismático e com um andar de cima, o 9B by Via Graça. E esta é realmente a mola que faz despoletar este artigo. Entra-se e vê-se logo a labuta da cozinha, sem pudores nem esquemas, e de fundo cénico, o Tejo e o azul descarado do céu de Lisboa. Há dois menus fixos: o 9+b, em nove tempos, numa homenagem à cidade, uma história contada com peixes e mariscos, pela faca do chef Guilherme Spalk. O segundo menu, o 9+9, tem dezoito passos, e viaja por todo o país, “como se fosse uma última refeição, onde queremos ter um resumo do melhor de tudo”, nas palavras de Guilherme Spalk. Neste menu mais substancial já entra a carne, não fosse meio Portugal dela excelente produtor. A cozinha prima pelo uso dos produtos da época, sejam eles do mar, da terra ou da horta. O estimado Via Graça continua, claro, em funções no piso inferior. Chega-se lá descendo a escada que dá acesso à magnífica garrafeira, onde podemos invejar a maior coleção de Barca Velha de todo o país.  

9B by Via Graça e Via Graça
Rua Damasceno Monteiro, 9-B, Lisboa

Provincia

Depois de ter já em funções três restaurantes, o grupo Non Basta abre o Provincia, que como os anteriores continua na senda a la italiana. Mas esta nova adição tenta atenuar a omnipresença natal e a render-se mais a Portugal.

Fechar momentaneamente o livro de receitas da nonna e dar largas à criatividade passou também pelo desenho espacial, da autoria de Inês Moura: o espaço transmite a ideia de ‘viagem’, de sair da cidade para provar a comida de província, e surgem ‘ilhas’, em diferentes volumes, formas e alturas.

O layout é feito de materiais tradicionais portugueses, como a pedra e a madeira, e as estantes mostram antiguidades de copa, como cristais, terrinas ou livros.

O menu não cortou completamente laços com o passado e as iguarias italianas continuam a ser veneradas na forma de queijos ou massas confecionadas de raiz, diariamente, no restaurante. Lula dos Açores, ostras de Setúbal ou porco preto de Estremoz são agora também estrelas neste firmamento gastronómico. Mas há um forno a lenha, comme il faut, de onde saem ainda aromáticas pizzas. Afinal, este Provincia não leva acento no primeiro i.

Provincia
Avenida da República, 48B, Lisboa

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