The final cut

Em moda, um corte ou um penteado funcionam como o sublinhado do look. Agora, pode sublinhar com um aparo em prata lavrada da Montblanc.

Trazemos-lhe três cabeleireiros que, mais do que sublinhar, podem definir e editar um estilo.

Por João GS

Oribe, el más grande

De raízes cubanas, e como tantos com a América das oportunidades ali tão perto, Oribe Canales emigrou para aquele país ainda criança, com a família. O seu caráter expansivo e alegre cruzou-se às mil maravilhas com o espírito dos anos oitenta; numa época em que a largura dos ombros dos casacos nos faziam entrar de lado na estreita porta do Frágil, Oribe, como ficou conhecido, desenhava os cabelos das mais conhecidas top-models à proporção: imensos, altos, de volumes assim vistos na história da moda apenas no decadente Antigo Regime do final do século XVIII, com Maria Antonieta e suas amigas.

O excesso é a marca dos anos 80. Oribe foi na moda um dos mais meritórios seus embaixadores: the bigger the best, sem medir meios para atingir fins. É bem conhecida uma conversa com Naomi Campbell, nos bastidores de um desfile, quando Oribe quis colocar extensões no cabelo da já top-model, e não tinha tempo nem meios: “Vamos usar Krazy Glue!”, uma marca de super cola de efeito rápido e, perigo dos perigos, permanente. O resultado pretendido mereceu aplausos, mas no final do desfile a manequim teve de cortar o cabelo, afinal super cola é super cola.

Talvez o principal fator de sucesso do artista tenha sido este entusiasmo contagiante, uma espécie de paixão que conseguia fazer partilhar, especialmente entre as manequins mais conceituadas da década que viu nascer a moda como a temos conhecido até agora. Em tempos anteriores às contas de influencers e instagramers de relevo, esta rede de amizades úteis era melhor do que publicidade paga nas fachadas de Times Square.

Bem se entenda que esta rede de influências não foi uma estrada de um só sentido: se é certo que Campbell, Evangelista ou Crawford foram o seu melhor meio de divulgação, também é correto afirmar que nenhuma delas (entre tantas mais) cresceria tanto nas passarelas sem o estilo de Oribe como fator determinante.

Oribe Canales abriu salões em Nova Iorque e em Miami, terra onde era muito mais feliz. Miami é a terra dos USA onde qualquer latino se sente mais em casa, com uma movida desenhada ao tamanho do seu moxie. Foi este moxie latino que na década seguinte, em 1998, atraiu Jennifer Lopez, como uma borboleta porto-riquenha fascinada pela luz do cubano. A cor e o volume à JLo têm a assinatura de Oribe, e são parte integrante do carisma ultra-pop da cantora.

Em 2008, Oribe deu o passo seguinte e criou a sua própria linha de cuidados capilares, vendida 10 anos depois à Kao USA Inc., mas já antes, a meio da década de 90, tinha tentado penetrar neste mercado de milhões. O amigo Karl Lagarfeld ter-lhe-á mesmo dado a ideia para o packaging, inspirado nos produtos de limpeza domésticos.
Um homem maior do que a vida e que a viveu tão intensamente só podia morrer novo e com tanto ainda para dar: acabou os seus dias em Manhattan, em dezembro de 2018, com apenas 62 anos.

Patrick, o clássico

Certifica que todos nós temos esta vontade de deixar alguma marca, “qualquer coisa inovadora ou diferente pela qual queremos ser reconhecidos ou lembrados. Mas em grande parte tudo, ou quase tudo, está já inventado”. Diz-nos Patrick que podemos reinventar ou mudar o ‘embrulho’, a apresentação, mas, na verdade, depois de tudo bem escorrido, nada muda: “As verdadeiras mensagens que podemos transmitir são um trabalho bem feito, a perícia na execução, o domínio técnico nas diversas áreas da profissão e, o mais importante, o reconhecer que somos humanos e que errar faz parte do percurso. O resto – a relação com as pessoas, a ‘assinatura do autor’, toda a experiência no salão…, isto sim pode ser muito gratificante! Para quem nos visita e para quem trabalha”. Define Patrick que clássico “é um trabalho bem feito e, na medida do possível, inovador e ‘fresco’ na forma, é assim que defino o clássico!”

Saiu da Bélgica natal por amor há 38 anos, para viver com a alma gémea como o coração lhe exigia. Já era cabeleireiro, profissão para onde o destino o empurrou enquanto estudava nas Belas-Artes de Bruxelas e não sabia muito bem o que fazer no futuro: “Um colega de turma fez um comentário algo desagradável, para não dizer péssimo – existe sempre alguém assim em todas as turmas… A verdade é que foi ele a despertar a minha curiosidade, e logo na semana seguinte fui informar-me do curso de cabeleireiro, e nunca mais deixei a profissão”.

Quando lhe perguntamos em que medida estes novos tempos de pandemia e confinamento podem influenciar um métier como o seu, que implica um contacto físico próximo, Patrick recusa-se a deixar que uma situação “sobre a qual não tenho controle nenhum me deite abaixo. Sou naturalmente um otimista e, como tal, tenho por norma adaptar-me rapidamente a ver o copo meio-cheio. No meu dia a dia, faço tudo o que está em meu poder para evitar que esta pandemia me/ nos afete, privada e profissionalmente. As repercussões, logo tomarei conta delas, na devida altura. Agora é tempo de prevenção e de cuidado”.

E como estes novos tempos afetarão as tendências dos cabelos, como temos visto regularmente, estação após estação? Diz Patrick que esta pandemia vai mudar tudo à nossa volta, a começar por nós mesmos.

No que diretamente lhe diz respeito, aos cabelos, já se reflete a mudança: “Estilos de corte mais simples, que permitam ‘planos B’, como rabos de cavalo, cabelo apanhado, cores mais naturais e próximas da cor original do cabelo, mostrando menos efeito de raízes ou estilos que vivam de forma natural, sem intervenção. Creio que esta tendência se vai manter durante algum tempo, pelo menos até todos nós voltarmos a confiar num futuro, que espero pouco distante.”

Patrick termina esta conversa com a F Luxury sublinhando que nunca deveremos dar parte de fraco: “O nosso estilo é fundamental, intrinsecamente ligado ao nosso ‘eu’ profundo, à nossa intimidade, à imagem que temos de nos próprios! 

Temos de nos mimar, cuidar, recompensar! Contrariamente ao que afirma a célebre frase “less is more“, menos nunca será mais. Less is less, but more is better!”

Philip B, o alquimista

Já passou há muito o estatuto de cabeleireiro e hoje é mais um nome que associamos a marcas de cuidado capilar. Quando pesquisei para escrever este artigo, uma amiga disse-me. “Tens de falar do Russian Amber do Philip B!”. É assim que toda a gente o conhece, por Philip B, o inventor de uma das mais conhecidas marcas da fileira. O B é o segundo nome, Berkovitz, mas ficou esquecido há décadas quando emigrou da Alemanha para os EUA, trocando-a por nada menos do que Hollywood.

Define o seu look não tanto como forma, mas como estado: “O meu look é apenas cabelo saudável, brilhante e vivo. O estilo e as tendências dão lugar a pessoas que querem, acima de tudo, sentirem-se bem consigo próprias, isto nunca sai de moda e é para sempre”.

A linha Philip B nasce, como diria Munari, de uma ‘nss’, uma necessidade socialmente sentida: “Quando alguém se sentava na minha cadeira do salão o que eu queria mesmo, mais que fazer um corte ou um styling, era dar à cliente uma solução de médio/longo prazo: um cabelo saudável é bem mais importante do que um corte bonito”, diz-nos Philip. “A maior parte dos cabeleireiros são apenas ‘corte & cor’, sem se preocuparem com a saúde do couro cabeludo, sem atacar a raiz do problema nem ajudarem a fazer crescer ‘melhor cabelo’. Usam produtos que mascaram a dificuldade, sem a resolver”, revela.

Os produtos que já existiam eram uma espécie de ‘moda num frasco’, sustentados por campanhas de marketing nem sempre confiáveis, à imagem da qualidade dos ingredientes usados.

Os clientes, ao usá-los, ficavam desapontados logo após a primeira lavagem. Queriam que o marketing cumprisse a promessa, e “eu decidi cumpri-la, mas à minha maneira e com os meus próprios produtos”.

Todas as soluções naturais e não invasivas para ter cabelo saudável, espesso e brilhante – sustentado por um couro cabeludo sadio -, estão presentes nas composições botânicas da marca Philip B.

Desde as antigas civilizações, como se pode observar em documentos históricos, as pessoas usam ervas e compostos botânicos para curar problemas comuns da pele, como inflamações e erupções.

Leu e estudou, começou a fazer as suas próprias experiências, testando elementos e composições. Usando mezinhas tradicionais, receitas antigas – dos tempos em que estes produtos não eram abastardados pela industrialização – e o seu próprio bom senso, foi criando uma linha que ora estimula ora acalma couro cabeludo e cabelo, à base de humectantes e emolientes. Sempre de origem natural, estes compostos corrigem de forma não invasiva eventuais desequilíbrios que criam bad hair days.

O terreno de experimentação da linha criada por Philip não podia ser melhor: se as suas clientes de Hollywood – todas as atrizes de renome, habituadas às melhores marcas – adoraram e aderiram de imediato aos produtos, o que não fariam as restantes mulheres ao redor do mundo. A marca comemora este ano três décadas de vida, e a filosofia de Philip não mudou. Tem sido premiada ao redor do mundo, incluindo em Portugal.

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