A vinha e a mulher

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In vino veritas e as nossas mulheres dizem tudo o que lhes vai na alma quando o assunto é vinho. Enólogas, formadoras, consultoras, gestoras, este grupo apenas é restrito porque o espaço é curto e porque há ainda muito por onde crescer. Mas os tempos são de mudança. Brindemos!

Por Isabel Figueiredo

Imagens cedidas

Li recentemente que o status dos homens (ainda) é frequentemente medido pelas garrafas que escolhem, na carta ou para servir em casa. A diferença entre a escolha pelo valor da garrafa e a vontade de beber e partilhar aquele vinho estariam, assim, na base do que diferencia homem e mulher no que toca à sua relação com o vinho. No decorrer desta reportagem, pude confirmar a enorme envolvência e a paixão que as nossas entrevistadas nutrem pela terra, pela vinha e pelo seu fruto. E o fruto desta ligação são os seus projetos, familiares e pessoais, que se revestem hoje de tanto sucesso e saúdam a ligação ao setor com conhecimento, curiosidade, perseverança e muito trabalho.

Joana Maçanita, Maçanita Vinhos

Se a Joana optou pela formação em Viticultura e Enologia pelo Instituto Superior de Agronomia de Lisboa, muito o deve ao irmão António, que arrancou com um projeto de vinhos no Alentejo estava a Joana a meio do curso do ISA, “porque queria aperfeiçoar raças de cavalos e seguir produção animal”. Não entendia nada de vinhos – palavras da Joana – e em 15 dias fez um curso intensivo com uma enóloga amiga para poder dar o requisitado apoio familiar. Bastou este pedido para, depois da primeira vindima, apontar baterias noutra direção e mudar de curso. “Nunca mais larguei os vinhos”.

Criar é um trabalho muito gratificante, conta-nos. “Gosto de explorar o mundo dos vinhos, de descobrir os nossos terroir, novas formas de fazer, recuperar o que não se faz e surpreender quem gosta de vinho. É verdade o que muitos dizem, que tenho muito sorte com o trabalho que desenvolvo, e não posso negar que adoro tudo o que faço”.

Passaram pouco mais de dez anos desde que Joana e António iniciaram este percurso, um pouco por todo o lado, junto de vários produtores na área da consultoria. “Trabalhámos lado a lado em mais de 14 projetos, mas em nenhum outro fazíamos os vinhos juntos. Quando fui trabalhar para o Douro fiquei apaixonada por aquela gente, pela cultura da vinha e pelo do vinho do Douro. Quem melhor para partilhar isto comigo do que o meu irmão António, que me fez entrar neste mundo”, confessa.

Maçanita representa hoje, para esta dupla, muito mais que um nome próprio. “Representa uma forma de ser e de agir, bem como valores inabaláveis que nos foram transmitidos pelo nosso pai e o nosso avô e pelas milhares de pessoas que com ele privaram, o ‘Coronel Maçanita’, e que nos relatam histórias fantásticas sobre a sua bravura, irreverência e personalidade forte e indestrutível que maravilhou quem o conhecia de perto – e que criou grandes inimigos junto das patentes altas que não apoiavam a sua conduta out of the box”.

Joana define-se como uma perfecionista. Gosta de estar perto dos vinhos, de os sentir. Confessa ter alguma dificuldade em tomar decisões com números. “Preciso de ver, cheirar e ouvir o vinho para poder criar. Sou uma amante de brancos de pureza e frescura, a minha maior vontade é que os vinhas transitem do lugar de onde são originárias. Acho que posso dizer que o meu estilo de vinificação é não intervertido (natural)”.

O trabalho efetuado na Maçanita Vinhos procura explorar “todos os Douros, quero com isto dizer, os diferentes terroir do Douro. Ainda nem a meio vou”, diz, rindo. “Ainda tenho muito a explorar”. Mas Joana gostava que, quando um consumidor quisesse provar e conhecer melhor os vinhos da região do Douro, tivesse a Maçanita como “referência de sermos o único produtor de vinhos no Douro que não tem uma escola certa, uma única filosofia, uma única quinta de onde saem os seus vinhos ou mesmo um único estilo.” E remata: “Somos todos o Douro, os vinhos quentes e concentrados, os vinhos de altitude, os vinhos de monocasta, os vinhos de vinhas velhas, os vinhos das letra A e os vinhos da Letra F. Maçanita é sinónimo de todo o Douro”.

Mas há desafios, como em tudo. No seu caso, lembra, estes desafios estão no equilíbrio entre intervir e não intervir. “Quando comemos um morango queremos que ele seja suficientemente doce, ácido, com aroma… e queremos que isso seja tudo natural, e que o morango dure muito tempo, pois todas estas coisas são muito difíceis de conjugar. Nos vinhos é igual, queremos que sejam o mais puros possíveis mas, ao mesmo tempo, que não sofram alterações microbiológicas não desejáveis ou alterações químicas precoces. É um equilíbrio fino entre a intervenção do enólogo e a natureza do vinho”.

Estes desafios, contudo, sobrepõem-se aos que Joana enfrentou no início da sua carreira, quando se sentia tratada com algum desdém. “Confesso que durante muito tempo senti que era uma questão relevante, esta dos sexos, e penso que para a crítica, jornalistas e mesmo enólogos da geração anterior à minha, existia uma descredibilização assinalável sobre o valor das mulheres no vinho. Mas nunca me deixei abalar por isso, sempre acreditei em mim, e fiz mais depressa e melhor do que qualquer rapaz que se cruzou comigo. A verdade é que uma mulher, para ter a credibilidade do homem, geralmente, tem de fazer mais e melhor. Sei que existe uma diferença mundial, mas também sei que qualquer mulher com competência e com garra terá sucesso no mundo dos vinhos . A minha filosofia foi sempre de partilha e aprendizagem, ouvir primeiro, falar depois, e como conhecimento é poder, fui-me safando bem”.

Cristina Laffan

Formada em Gestão de Hotelaria e aluna do prestigiado WSET nível 2 (Wine & Spirit Education Trust), atualmente a estudar para o nível 3, Cristina tem um apelido que nos desperta a atenção, porque sabemos tratar-se de alguém ligada ao chef Miguel Laffan. É irmã, com efeito. E tal como ele, mergulhou no universo da hotelaria há mais de 15 anos. Hoje é formadora na Escola de Hotelaria de Portalegre, que concilia com os workshops de harmonização de vinho e comida e os roteiros de enoturismo pelo Alentejo.

Abraçou este universo de forma intuitiva e apaixonada. Para Cristina, “o vinho é um tema base para falar de geografia, de história, de viagens e de gastronomia. A arte de apreciar vinho transporta-nos para fora da nossa cabeça e dos nossos pensamentos, leva-nos a fazer uma pequena viagem guiada pelos nossos sentidos”, descreve, acaloradamente.

“Todos os dias aprendo algo diferente, conheço muitas pessoas e é sempre uma grande emoção quando descobrimos combinações estrondosas entre comida e vinho, combinações inesperadas que podemos passar aos outros.”
Por gostar tanto desta área, e habitar no Alentejo, no seio de paisagens de vinha onde a vida se faz noutro ritmo, Cristina não se prende a preconceitos, mas admite que para alcançar o reconhecimento tem de ser criativa e trabalhar de forma alinhada com a sua identidade muito própria. “Só assim o nosso trabalho é autêntico e diferenciador. Na verdade, para mim, o único desafio é não saber responder quando me perguntam qual o meu vinho preferido”, lança-nos, sorrindo.

Como a maioria das mulheres, Cristina tem esta relação íntima com o vinho que não se prende ao valor da garrafa. E explica: “As mulheres tendem a ser mais sensíveis devido ao palato, ou melhor, devido à maior quantidade de papilas gustativas em comparação com os homens e são, por isso, menos tolerantes a características mais agressivas do vinho, nomeadamente os taninos e o álcool, mas é tudo uma questão de habituação do palato e, claro, de uma boa maridagem com a comida”. Fica aqui a vontade de alinhar no próximo workshop e viajar com Cristina.

Bárbara Monteiro, Mainova

Formada em Gestão de Marketing, Bárbara cresceu sempre com o campo por perto, observando a forma como as suas avós contactavam com a natureza, como dela cuidavam e dela tiravam partido. Quando surgiu a oportunidade de laborar no setor do vinhos, não hesitou. “É muito inspirador poder trabalhar num universo que tem por base a natureza”, salienta. E foi, por isso, inspirador poder dar voz a um projeto de família, Mainova, a marca de vinhos e azeites extra-virgem de produção biológica, “que nasceu de uma paixão pelo Alentejo e pela necessidade de cuidar da nossa terra, podendo criar produtos de qualidade superior de forma sustentável”. O selo Mainova nasce assim como projeto de família e como forma de levar o feminino ao Alentejo. “E o nome Mainova acabou por fazer todo o sentido, uma vez que não existe a ‘mainova’ da família sem todos os outros elementos”, conta-nos.

“O vinho e o azeite são dois produtos surpreendentes, para além de fazerem parte da nossa cultura há décadas podem ser benéficos para a saúde, se ingeridos com moderação”, revela. Como tal, “é maravilhoso podermos acompanhar e cuidar das oliveiras e videiras em todo o processo e poder colher o fruto e transformá-lo em algo único. O resultado final é proveniente de todo o trabalho de um ano. Se a planta for bem cuidada sabemos que iremos colher bons frutos e teremos, consequentemente, um bom produto final”.

A empresa é muito jovem. “Estamos no mercado há cerca de seis meses, ainda temos muito para conquistar, mas esperamos daqui a cinco anos ser uma empresa reconhecida no mercado no setor do vinho e azeite a nível nacional e internacional. Também esperamos continuar a inovar e a fazer cada vez mais para e por um mundo mais verde, afinal vivemos da terra e temos de cuidar para colher”.

Identifica o seu estilo de vinificação como sendo “minimalista, com pouca intervenção humana e baixa em sulfitos. Não aceleramos qualquer processo” – a vinificação dos vinhos Mainova está a cargo dos enólogos António Maçanita e Sandra Sarria.

Para já, Bárbara identifica um desafio grande, mas não inultrapassável. “Conseguir responder a todas as necessidades das videiras, acompanhar e mantê-las saudáveis, de modo a obter bons resultados”. E como mulher?

“Existem cada vez mais mulheres na indústria, o que é muito positivo, mas eu estou há pouco tempo no mercado, a minha experiência ainda é pouca, o tem sido desafiante. Todo o sucesso que colhi até hoje se deve ao facto de ter avançado com as minhas ideias, mesmo quando algumas não eram, supostamente, bem vistas no setor. Estamos a surpreender e a conquistar os consumidores com os detalhes e a qualidade, apesar do toque feminino em todas as nossas garrafas e em toda a nossa abordagem”, destaca.

Susana Esteban

Nascida em Tui, Espanha, e licenciada em Ciências Químicas pela Universidade de Santiago de Compostela e Mestre em Viticultura e Enologia pela Universidade de La Rioja, Susana Esteban começou a sua trajetória como enóloga em 1999, na Quinta do Côtto, tendo trabalhado depois como enóloga na Quinta do Crasto, entre os anos 2002 e 2007, duas quintas situadas no Douro. Desde 2009 que Susana tem exercido a sua atividade como consultora junto de diferentes produtores do Alentejo, nomeadamente no São Lourenço do Barrocal. Em 2012 foi-lhe atribuído o prémio mais prestigiado que um enólogo pode receber em Portugal, o título de “Enólogo do Ano”, pela Revista de Vinhos, tendo sido até à data a única mulher a quem foi atribuída tal distinção.

“Sempre tive muita curiosidade por áreas como a gastronomia e a prova de vinhos e desde cedo que queria trabalhar em algo que estivesse ligado à agricultura. Queria estar no campo e não fechada num escritório”, conta esta mulher, que foi a primeira da sua família a enveredar por esta via.

Hoje, Susana tem o seu próprio projeto, que leva o seu nome, com nove referências diferentes. “É um projeto de pequena dimensão, faço 35 mil garrafas por ano, mas o meu objetivo é chegar às 50 mil”, revela. E porque sonhar não tem fronteiras, mesmo num momento de tanta incerteza, Susana projeta o investimento numa nova adega e aposta no trabalho na sua vinha, na Serra de São Mamede.

É seu estilo de vinificação o tentar preservar ao máximo a identidade das vinhas com que trabalha e ser o menos interventiva possível. “Menos é mais, gosto de deixar que a vinha seja a protagonista, sem influenciar demasiado o resultado final. Gosto que seja a vinha a ‘falar’ e tentar fazer vinhos que perdurem no tempo, esses são sempre os meus objetivos”.

Apaixonada pelo que faz, Esteban destaca como principais desafios justamente o aspeto surpresa, o facto de cada casta ser diferente e de viver um constante processo de aprendizagem. “Isso, sim, é muito desafiante, não haver rotina, nunca ter a certeza de nada. Podemos achar que aquele ano correu bem, mas no ano seguinte tudo muda… Claro que a experiência ajuda, mas não há verdades absolutas. Cada encontro com outros produtores, cada nova colaboração é um abrir de horizontes”.

O facto de ser mulher não a impediu de chegar até aqui, mas reconhece que ainda hoje as pessoas se surpreendem quando conhecem uma enóloga. “Venho de uma região, as Rias Baixas, onde há muitas mulheres enólogas, sobretudo da minha zona, a do Alvarinho, mas em Portugal, no Douro, no final dos anos 90 havia apenas duas enólogas titulares, consultoras, e ainda hoje há muito poucas enólogas consultoras”, desabafa. “E produtoras”, prossegue, “creio não haver mais do que cinco ou seis. Claro que histórica e tradicionalmente sempre foi um meio muito masculino, mas hoje são cada vez mais as mulheres que enveredam por esta área e que se formam, mas depois ou não dão o passo seguinte ou não lhes dão a oportunidade para atingirem o patamar de enóloga principal ou consultora de uma grande empresa. E quanto mais tradicional é o meio, caso do Vinho do Porto, mais se verifica esta escassez de profissionais no feminino.”

Existe algum vinho ‘mais feminino’?, queremos saber, já agora. “Há apreciadores de vinho ou não! O vinho está desde sempre mais vinculado ao homem; é raro ser uma mulher a escolher o vinho. Mas quando ela ganha experiência, quando é conhecedora, tanto gosta de vinhos mais doces como estruturados. Não tem a ver com o ser mulher ou homem, mas com o conhecimento”, pontua.

Rita Soares, Malhadinha

A administradora e fundadora do projeto Malhadinha, em conjunto com a família, tem formação superior na área da Educação, área em que nunca chegou a exercer, e desenvolve atualmente várias formações no mundo das artes – piano no Conservatório e cerâmica na ARCO.  

Responsável pela criação e implementação do projeto de turismo experiencial da Malhadinha, as suas funções são muito variadas, “praticamente em todas as áreas da gestão que partilho com o meu marido e com o meu cunhado”, acompanhando com igual paixão a produção de vinho e a sua comercialização, nacional e internacional, bem como toda a dinâmica de imagem e comunicação da Malhadinha. A estas, como se não bastassem, soma a criação e o desenvolvimento de todos os projetos de arquitetura de interiores do projeto.

“Todos os desafios diários apenas são ultrapassáveis com o máximo respeito pela natureza, pela região, pela história e tradição. Se a esta forma de trabalhar se somar a definição rigorosa dos objetivos e estratégias relativas a todas as áreas – branding, marketing, comercial, nacional e internacional, e, por último, garantir a consistência em todos estes pontos ao longo do anos – , qualquer desafio será transposto rumo ao sucesso”.

É de extrema importância, diz-nos, “o trabalho anual na vinha para obter a melhor fruta em cada colheita. Os processos de produção biológica na Malhadinha abrangem todas as áreas produtivas, na vinha e olival e produção animal, na adega. A enologia tem como objetivo influenciar ao mínimo o que a natureza nos oferece a cada ano e conseguir uma harmonia perfeita em todos estes aspetos é, quanto a mim, o maior desafio.

A sua experiência no setor tem sido muito positiva, até porque existem cada vez mais mulheres profissionais na indústria do vinho, “e são muito bem-vindas e valorizadas”. Com efeito, revela-nos, Rita faz parte de um grupo informal de mulheres profissionais do vinho que testemunham exatamente essa valorização – ‘United Wine Women Blend for a Cause’ -, um grupo que surge e é criado a partir de um convite de uma empresa de produção de barricas de carvalho francês para uma visita de três dias a Bordeaux, a alguns dos melhores châteaux franceses e à tanoaria em questão. “Foram convidadas apenas enólogas e produtoras portuguesas e apenas de alguns dos melhores vinhos em Portugal. Dessa viagem resultou a criação de um grupo de mulheres apaixonadas pelo vinho que se unem apenas para causas sociais”.

Sobre o conhecimento do vinho, em geral, e no seu entender, “todos os iniciantes ou consumidores menos experientes optam por vinhos mais suaves e mais doces, por serem mais fáceis e mais atrativos ao consumo inicial. Mas porque o gosto também se ensina, conforme cresce o prazer de conhecer melhor o fascinante mundo do vinhos – e o aprofundar de alguma teoria que distingue o universo das castas, das regiões, das categorias, das formas de vinificação -, cresce o gosto e a procura por tipologias de vinhos mais complexas e mais difíceis de apreciar num primeiro contacto; tal exige mais conhecimento, mais descoberta, e perceber, acima de tudo, as características tão vastas deste universo”.

Hoje em dia, e sabendo-se que mais de 50% dos cursos de prova de vinhos são frequentados por mulheres, o seu palato e capacidade de escolha está mais aprimorado. “Quando evoluímos neste conhecimento, optamos naturalmente por vinhos mais complexos, mais duros e mais difíceis de gostar e apreciar no início da nossa relação com o vinho. É uma evolução natural explicada pelo início mais tardio das mulheres versus o consumo mais frequente dos homens”.

Para além disso, já o sabemos, o vinho, bebido em moderação, tem imensos benefícios para a saúde, e pode ser ainda mais vantajoso para as mulheres.

Rita destaca a redução dos efeitos da menopausa. “Os polifenóis, substância química presente no vinho, agem no corpo de forma a minimizar o efeito de calor, ajudando também no controlo do peso”. E desenvolve: “Um estudo elaborado pela universidade de Harvard, nos EUA, comprovou que mulheres com um consumo de vinho moderado correm menos riscos de obesidade. Acrescento ainda os já tão divulgados e conhecidos benefícios dos antioxidantes presentes no vinho ou na estimulação da libido. O vinho, para além de ser uma das bebidas mais românticas do mundo, contribui para o aumento de hormonas positivas e para a sensação de relaxamento que favorece a manutenção da saúde sexual feminina. Por tudo isto, um brinde a tempos mais estáveis é o meu desejo”.

Sandra Tavares da Silva, Wine&Soul

Licenciada em Engenharia Agronómica no ISA, Instituto Superior Técnico de Lisboa e Master de Enologia na Universidade Católica de Piacenza, Itália, Sandra Tavares da Silva tem uma ligação à terra muito forte, e desde tenra idade.

“Passava muito tempo na quinta dos meus Avós, em Alcochete, e sempre tive um fascínio muito grande pela natureza e pela agricultura, daí que quando os meus pais adquiriram a Quinta de Chocapalha, em Alenquer (1987), com o objetivo de criar um projeto familiar, fez ainda mais sentido a minha vontade de estudar Agronomia e de, mais tarde, especializar-me em Viticultura e Enologia”.

A ausência de rotina, as viagens empreendidas pelo mundo fora, promovendo os vinhos das empresas, mas, acima de tudo, o facto de poder criar vinhos que são, no fundo, “a nossa forma de interpretar aquela vinha específica e toda a liberdade nestes atos criativos e as muitas fontes de inspiração”, como nos revela, sublinham a paixão pelo que faz.

Fascinam-na esta possibilidade de criar vinhos com a identidade de cada local, de cada vinha, de cada terroir específico. E tanto nos projetos Wine&Soul como no da Quinta de Chocapalha, onde é enóloga responsável, Sandra confirma a vontade de criar algo “diferenciador, autêntico e que sugira muito prazer na partilha!”.

Diz do seu estilo de vinificação ser “clássico, inspirado nos modelos de vinificação mais ancestrais, como o vinificar em lagares, barricas, balseiros e com intervenções mínimas de modo a que se verifique a expressão mais pura da origem”.

No início, como em tudo,  quando terminou os estudos (1999), e quando existiam poucas enólogas, debateu-se com algum cepticismo relativamente às suas capacidades, sobretudo as “de como vencer e trabalhar num mundo muito masculino”. Mas, confessa, “como era muito jovem, cheia de energia e de sonhos, sempre acreditei que conseguiria fazê-lo e como tal estagiei no Douro nesse mesmo ano, na Quinta Vale D. Maria, onde, mais tarde, fiquei a trabalhar”.

O seu maior desafio, naquela época, foi “quebrar esses preconceitos. Foi fulcral provar e dar segurança à minha equipa e mostrar a outros enólogos e produtores que conseguia fazer o mesmo, mas de forma diferente”. Hoje os tempos são outros e, segundo Sandra Tavares, as mulheres até podem ter alguma vantagem neste setor, porque já provaram que conseguem fazer o mesmo trabalho que os homens. “Existe uma forte lealdade e amor para com os projetos, somos, em regra, mais emotivas, daí vermos, normalmente, as mesmas enólogas ligadas à mesma casa anos sem fim o que dá garantias e consistência ao projeto”.

Mas há sempre imponderáveis neste setor, que depende tanto das vontades da Natureza. “A total dependência dos fatores climáticos, e aquilo que eles representam no setor do vinho, quando uma cultura apenas tem retorno muitos anos após a data de plantação – além de não ser fácil a deslocalização, à semelhança de outros tipos de cultura – , são alguns dos desafios que encontramos pela frente. Outro, com grande peso, é o fator económico – e hoje vivemos uma das mais difíceis e preocupantes eras para o nosso setor, porque nos debatemos com a enorme imprevisibilidade do futuro. Soma-se a isso o facto de não existir mão de obra e recursos humanos especializados no mundo rural”, salienta.

Mas o trabalho tanto na Wine&Soul como na Quinta de Chocapalha está feito, e soma 20 anos de provas dadas. “Não obstante, gostaria que as nossas marcas fossem identificadas como clássicas, mas inovadoras, e inspirassem muita confiança no consumidor. É esse o trabalho que temos feito, ao possuirmos as vinhas, e esse tem sido o nosso grande investimento ao longo destes 20 anos”, diz. “Temos total controle das vinhas, o que nos garante a consistência do produto e da origem. Cada Marca, cada Rótulo, tem uma vinha por trás totalmente identificada e por nós controlada”.

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