Barca Velha 2011 Saudemos um dos expoentes máximos do Douro

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Quase uma década após a última edição, a Sogrape coloca no mercado as 30 mil garrafas do Barca-Velha 2011. Trata-se da 20ª colheita de um dos mais icónicos vinhos portugueses. Desde a década de 1940, quando Fernando Nicolau de Almeida começou a idealizar um vinho tinto do Douro que tivesse a mesma filosofia de qualidade e de guarda dos Porto Vintage, só vinte colheitas de Barca-Velha foram lançadas pela Casa Ferreirinha. Chegados a 2021, sai para o mercado o Barca-Velha colheita de 2011, quase sete décadas após o lançamento do primeiro tinto mais simbólico da qualidade do Douro e de Portugal.

O lançamento do Barca-Velha 2011 fora anunciado em 2020, mas devido a um problema relacionado com a extração da rolha, a empresa não quis correr riscos de macular uma produção tão aguardada. Ainda está por descobrir o que aconteceu para que, em cada dez garrafas, duas ou três rolhas se partissem no momento da extração. Sendo certo que o problema não afeta minimamente a qualidade de um vinho, foi prudente esperar algum tempo pela operação de rearrolhamento antes de o colocar no mercado. Procurando preservar a longevidade do vinho e proteger a sua notoriedade e qualidade irrepreensíveis, a Sogrape anunciou em comunicado o novo adiamento do lançamento no mercado do icónico Barca Velha, que já levava um atraso de mais de cinco meses devido à pandemia da Covid-19. Foi uma necessária medida de precaução, e que foi ao encontro das boas práticas enológicas, o adiamento para depois de 2020 da entrada de Barca-Velha 2011 no circuito comercial, por forma a garantir que o vinho expresse em pleno o seu tradicional bouquet.

Símbolo de uma eterna busca pela perfeição, Barca-Velha é um vinho que se expressa em cada detalhe. Um vinho alimentado a sonhos e certezas, da ambição em produzir o melhor do Douro e da convicção que cada edição lançada supere e dignifique um legado ímpar. É, portanto, um vinho que desafia a arte de saber esperar. A colheita de 2011, anunciada no final de 2019, com lançamento inicialmente previsto para maio de 2020, e finalmente apresentada à Imprensa em setembro do mesmo ano, revelou-se mestre neste ofício.

Ao contrário do que que possa pensar, tal decisão jamais tem por base critérios económico-financeiros. É sempre tomada pela equipa de enologia, pois o que mais se procura na edição deste vinho é a sua excelência. Além disso, tal atraso não terá gerado contratempos na planificação da empresa, pois trata-se de um vinho que não é vendido todo de uma vez, saindo apenas à medida que vai sendo necessário, pelo que o atraso de três ou seis meses é aqui irrelevante. E dado que até à vindima de 2014 não irá haver, seguramente, outro Barca-Velha, as mais de 30 mil garrafas de 75 centilitros e as cerca de 2 800 de litro e meio (magnum) da colheita de 2011 terão de permanecer três ou quatro anos no mercado.

Engarrafadas a 6 de maio de 2013, depois de um período de maturação de cerca de 18 meses em barricas de carvalho francês, as cerca de 30 mil unidades do Barca-Velha 2011 superaram o teste do tempo em garrafa e são agora lançadas com grande expetativa, pela intrínseca ansiedade de saborear uma obra resultante de tão longa espera.

Uma novidade desta edição do ex-líbris da Casa Ferreirinha, devido ao seu êxito no mercado global e alvo de tentativas de contrafação, é a inclusão de uma solução inovadora para assegurar a sua autenticidade. O selo desenvolvido pela Imprensa Nacional – Casa da Moeda surge colado sobre a cápsula e o vidro, no gargalo da garrafa, combinando um conjunto de tecnologias que podem facilmente atestar a sua autenticidade com um leitor de QR Code / código de barras.

Portanto, qualidade e capacidade de envelhecer dentro da garrafa são as principais características deste verdadeiro símbolo da Região Demarcada do Douro, tendo a sua primeira edição nascido em 1952. Só é produzido em anos excecionais, com uvas maioritariamente produzidas na Quinta da Leda, em Almendra, Vila Nova de Foz Côa. Desde 2001, a vinificação ocorre na adega daquela quinta, onde é produzida a maior parte das uvas para o Barca-Velha. Touriga Franca (45%) e Touriga Nacional (35%) são as principais castas, ao que se lhes junta a Tinta Roriz (10%) e a Tinto Cão (10%), uvas do Douro Superior recolhidas em diversas parcelas e diferentes altitudes na Quinta da Leda para manter a qualidade, a complexidade e a harmonia. À medida que as cubas ficam cheias, o vinho é transportado para as caves, nomeadamente para as que a empresa possui em Vila Nova de Gaia, para estagiar em barricas.

Há pouco mais de 30 anos, Quinta da Leda só compreendia 20 hectares de vinha. Hoje, são já 170, plantados em diferentes altitudes e exposições solares. É ali que se pratica uma viticultura de precisão, a pensar na qualidade máxima que um Barca-Velha exige. Em cada vindima nas vinhas onde é feita tal viticultura, ou há Barca-Velha, ou há Reserva Especial, ou então não há nada, pelo que os lotes que não servirem para estes topos de gama irão enriquecer as restantes marcas do portfólio da empresa. Uma vez engarrafado, é avaliada a evolução do vinho, que vai sendo provado várias vezes ao longo de quatro, cinco ou até sete anos, de forma a conferir a sua qualidade e potencial. Se os enólogos julgarem tratar-se de um vinho com qualidade, estrutura, equilíbrio e, sobretudo, com capacidade de envelhecimento, então será designado de Barca-Velha. Se porventura acharem que não tem essa capacidade, será um Reserva Especial. Neste momento, está a ser avaliado o lote da vindima de 2019, para ver se existe qualidade para um novo Barca-Velha. Em princípio, tudo parece indicar que irá ser engarrafado, mas tal decisão ainda não está totalmente tomada.

Quanto ao Barca-Velha de 2011, o vinho passou cerca de 18 meses em barricas de carvalho francês antes de ser engarrafado em maio de 2013. É, de facto, um vinho impressionante, de grande profundidade e complexidade, que faz justiça ao fabuloso histórico da marca, à excecional vindima que o originou, e ao Douro enquanto região de excelência. Apesar da relevância que o lançamento do Barca-Velha assume na Sogrape, a decisão final cabe sempre aos enólogos. Três, apenas três enólogos, são até hoje os criadores do Barca-Velha: Fernando Nicolau de Almeida, o mentor de um vinho cuja primeira colheita é de 1952 (os livros de registos apontam 17 meias pipas de 225 litros); José Maria Soares Franco, o continuador do sonho e que decisivamente ajudou a afirmá-lo por diferentes edições; e Luís Sottomayor, que ainda conheceu o mestre quando entrou na empresa, em 1989, tendo durante anos trabalhado ao lado de “Zé Maria” e que, agora, assina o segundo Barca-Velha de plena responsabilidade (depois de participar na elaboração do 2000 e de ter elaborado o 2008).

O Barca-Velha, sendo o apogeu da enologia, não é mais importante do que outros. A Sogrape recorda outro caso de sucesso, nascido de outra paixão: o Mateus, o mais popular vinho português à escala global, que curiosamente também foi pensado nos anos 40, tal como o Barca-Velha, na altura pelo avô, Fernando van Zeller Guedes. Mas não deixa de ser um caso único no panorama vínico português, um embaixador do que de melhor os vinhos portugueses podem revelar. Os portugueses, aliás, são dos primeiros a percebê-lo e constituem o principal mercado do Barca-Velha, seguindo-se os Estados Unidos, o Reino Unido e o Brasil, este último também com um carinho histórico pela marca.

Se estiver a pensar comprar um exemplar, saiba que pode bebê-lo de imediato, pois o Barca-Velha 2011 está pronto a consumir. Porém, quando finalmente chegar o momento especial de abertura da garrafa, tenha em conta que na véspera a mesma deve ser colocada na vertical –  convém abrir a garrafa duas a três horas antes. Além disso, este vinho, com 14,5% de álcool, deverá ser cuidadosamente decantado para separar o sedimento natural, que ficará no fundo da garrafa, e ser servido a uma temperatura ideal, a rondar os 14 e os 16 graus, de preferência com pratos de caça ou carne vermelha.

Saber esperar pode ser desesperante, mas no caso de um vinho como o Barca-Velha é quase sempre uma virtude. E é sabido que os grandes vinhos precisam de tempo…

Por: João Libério

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