Graça + Paz

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É raríssimo quando o destino nos associa o nome que nos escolheram àquilo em efetivamente nos tornamos. Foi assim com Graça Paz, mas no caso dela não deixou muito mais coisas entregues à Sorte.

Conheci a Graça em meados de 2000, vivia numa casa mágica e feérica junto ao mar, no Porto. Era, claro, já uma Artista – que Artista nasce-se, não se faz – e pintava retratos e outras formas de Arte Figurativa e reciclava materiais pouco usuais quando ainda ninguém falava em upcycling e reciclagem.

“Ser íntegra comigo mesma foi o que mudou. Sempre tive uma atração pelo abstrato, mas o que na altura me pagava as contas era o figurativo. Também percebi que o abstrato é um processo interior intenso e muito virado para a psicologia que adoro, estudo e aplico diariamente. O abstrato é muito mais profundo, e uma comunicação muito mais intensa do que algumas vez imaginei. É, a meu ver, muito incompreendido e talvez por isso muito apreciado.”

Mudou de estilo e mudou de casa, saiu do Porto e foi viver para o interior onde nasceu. O pai de Graça era de Ponte de Lima, e o seu objetivo foi sempre ‘voltar’:

“Numa altura da minha vida no Porto em que estava a começar a ficar meia perdida a nível pessoal,  achei que era altura de tentar salvar aquilo que não tinha por onde ser salvo, que era o meu casamento e levar a família para o campo, onde poderíamos construir uma casa e começar uma nova vida. Quando mudei, o meu interior floresceu e tudo o que pertencia ao passado morreu. É assim a vida e o seu caminho incerto na direção de algo muito melhor”. 

Para Graça, o reconhecimento como artista – na perspetiva do ‘peso da vaidade’ – inusitadamente conta, especialmente agora que vem de alguma forma “consolidar uma certa maturidade interior em relação ao meu trabalho, que me permite não me sentir invadida. Se, por alguma razão, uma proposta me for feita através desse reconhecimento que por algum motivo me faça sentir desconfortável, declino-a, ainda que possa colocar em risco alguma coisa. Na verdade, das vezes que o fiz, o que veio a seguir foi muito melhor. É necessária a coragem de se aceitar ser-se como se é”, sublinha Graça.

A artista define-se como um lobo solitário, nunca se sentindo confortável ao ser resumida a um simples ‘carimbo’: “Penso que tive o percurso normal de um artista e sempre soube, intuitivamente, aquilo que era melhor para mim”. 

Desmontando a imagem que temos a priori da vida de um artista – excêntrico, desregrado e incomum –, Graça dá-nos a conhecer o seu processo; pauta-se por uma vida organizada, com horários certos, e vai ao atelier todos os dias. 

“Sei que o processo, no meu caso, não passa por ideias repentinas luminosas mas sim pela consistência criativa diária. Sou também muitíssimo intuitiva pelo que talvez por essa consistência sei exatamente o que vou fazer no momento em que entro no atelier. Aprendi com o Hemingway a deixar o trabalho num ponto em que saiba exatamente o que vou fazer no dia seguinte”.

Faz caminhadas pelo meio porque a energia criativa dentro de um espaço contido é intensa e deita-se “com as galinhas, porque estar cansada define o meu dia de trabalho”. 

Oscila entre a aguarela e o acrílico consoante o seu interior necessita, e através desses dois médium equilibra a sua homeostase.

Graça é um caso raro de um artista que sempre viveu apenas de o ser. Afirma que existe um estigma que nasce dentro do próprio artista, que seguir esse caminho não paga as contas e como o nosso interior define a nossa experiência exterior, é isso que temos passado de geração em geração: “Em todas as profissões há, ao longo da vida, altos e baixos. Penso que o artista mostrou este ano que tem uma maior capacidade em navegar na incerteza e fazer dela muitas vezes a sua arte. Neste ano que nos mostrou que ninguém, absolutamente ninguém, está seguro naquilo que faz e que a todos aproximou nessa fragilidade”.

Para acabar este retrato, um conselho atento de quem anda por estas lides há muitos, muitos anos, em forma de post scriptum: se é investidor em arte, compre Graça agora, enquanto ainda tem três dígitos no preço.

Para saber mais, aceda a gracapazart.com

Por: Por João Santos

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