Matias Damásio

De Angola para o Mundo

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Viver, amar e dançar. O nome do novo projeto musical de Matias Damásio – a ser lançado muito em breve – reflete bem a essência da sua música, que fala de amor e pátria, tendo por base os contagiantes ritmos africanos.

Por: Sofia Santos Cardoso

Nasceu na cidade de Benguela, em Angola. Quais são as melhores memórias que guarda da infância?

Nasci num bairro pobre e uma das grandes memórias que tenho é que éramos todos família. Aprendíamos muito nas ruas e dividíamos o pouco com todos. Éramos pobres, mas tínhamos a noção de que juntos éramos mais fortes e uma das recordações mais bonitas que tenho são as músicas que ouvia “de graça” no bairro. Não tinha televisão nem rádio em casa porque os meus pais não tinham essa possibilidade e foi nas casas que vendiam bebidas que ouvi, pela primeira vez, artistas internacionais como Michael Jackson, Kasssav e Madonna.

Em que altura da sua vida soube que queria ser músico?

Aprendi a cantar e a tocar guitarra com dois amigos de infância, quando fui para Luanda, aos dez anos. Nessa altura, também já fazia letras. Aliás, a primeira letra que fiz foi uma homenagem à minha mãe, que era empregada doméstica. Mais tarde, aos 17 anos, participei num concurso de televisão, a “Gala à Sexta-Feira”, da TPA. Na fase inicial, fiquei como suplente mas acabei por ser selecionado. O meu espanto é que eu era o suplente e acabei por ganhar o concurso. Foi ali que percebi que a música era a minha vida e que aquele prémio podia mudar o meu rumo.

É dos cantores angolanos mais premiados. O que representam para si as distinções que tem recebido?

As distinções são sempre um instrumento motivador. Às vezes, cantamos, fazemos músicas extraordinárias, a nossa família aplaude, mas também precisamos de um ‘termómetro’ que nos diga “a quantas andamos” no mercado. Ganhar o “Top Dos Mais Queridos” [gala anual promovida pela RNA e TPA] e outros prémios que recebi em Angola foi muito importante para continuar com “a cabeça erguida” e acreditar na minha carreira. A dada altura, quando comecei a ganhar estes prémios, percebi que as pessoas estavam atentas ao meu trabalho e isso, naturalmente, aumentou a minha responsabilidade, porque tinha de trabalhar para responder à altura dos que acreditavam em mim.

Internacionalizou a sua carreira com «Por Amor», um álbum muito dedicado à pátria e à história de Angola. O que o motiva a compor e a cantar sobre o seu país-natal?

A motivação para cantar sobre “a minha Angola”, “a minha terra”, é o amor que sinto por ela. Angola é a minha pátria e a minha prioridade máxima. É a terra que me viu nascer, onde senti o som do semba, onde ouvi Bonga, Waldemar Bastos, Filipe Mukenga, André e Ruy Mingas… foi onde aprendi todas estas sonoridades. É um país que me inspira. O nosso povo é festivo, é um povo especial… Um povo sofrido que esteve em guerra durante 30 anos mas que continua firme. É um país que tem 1500 motivos para continuar a cantar só para ele. As mulheres bonitas, as “kitandeiras” [vendedoras ambulantes típicas de Angola], os sons que ouvimos dos taxistas… Angola é a minha maior inspiração, pela nossa forma de amar, de dançar e de estar na vida.

Onde se inspira para compor as suas músicas?

A sociedade, os povos, as pessoas e os amigos têm sido uma grande inspiração para as minhas canções. Sou muito realista. A minha canção é considerada uma canção “terra a terra”. Não me considero um poeta, considero-me antes uma pessoa que faz uma “fotografia emocional” sobre tudo o que acontece no dia-a-dia. O quotidiano é uma das minhas grandes inspirações e é por isso que as minhas canções estão muito ligadas às pessoas e à realidade dos factos. Não sou de ficções, sou muito real.

Tem pisado vários palcos pela Europa. Como acha que os europeus sentem a sua música e a música angolana?

Sinto que África, com o seu ritmo e a sua poesia muito característica, e os embaixadores da música angolana e africana, acabaram por nos abrir portas. Passei por vários países europeus e sinto que as pessoas compreendem a minha linguagem, ao contrário do que eu imaginava. Apesar de ser um jovem africano, vindo do bairro e com uma linguagem muito própria, sinto que temos muitas coisas que nos identificam. O nosso ritmo vai-se impondo no Mundo. Sou muito feliz porque me sinto muito bem recebido na Europa e em todos os lugares por onde passo.

Já compôs com grandes nomes da música portuguesa como Mariza e Héber Marques. Pretende continuar a trabalhar com músicos portugueses?

Portugal é hoje a minha segunda casa. Compor o tema “Quem Me Dera” com a Mariza e o tema “Loucos” com o Héber Marques foram parcerias muito bonitas. Também tive a oportunidade de estar várias vezes em palco com a Raquel Tavares. Sou um grande fã do fado e já tenho novas canções compostas para outros artistas. Sinto que os artistas portugueses têm muito valor e que estão abertos a outras sonoridades. Quero, naturalmente, continuar a cantar e a fazer letras para outros grandes nomes. Tenho muitos amigos artistas portugueses, produtores, músicos… e sinto que o futuro vai ser juntar estas sinergias e produzir músicas fantásticas, incluindo alguns duetos.

Para quando podemos esperar um próximo álbum?

Durante este tempo de pandemia acabei por compor várias canções e este mês de dezembro vou lançar um EP: “Viver, Amar e Dançar”. São sete canções que falam sobre amor e sobre Angola. São canções muito lindas, muito realistas, com ritmos africanos, para dançar e refletir e, naturalmente, com aquela emoção romântica que eu habitualmente dou às pessoas. Espero que gostem.

A época natalícia está à porta. Como comemora esta quadra?

Este vai ser um Natal muito especial porque temos a possibilidade de estarmos mais próximos. Infelizmente, nas épocas festivas, nós, músicos,  andamos muito em tournées e o tempo que temos é muito pouco mas tenho uma tradição que é juntar a família e, normalmente, costumo fazer uma canção de Natal para Angola. Este ano, tenho um projeto para compor, uma canção onde vão participar vários artistas. Embora estejamos numa fase de pandemia que não nos permite fazer planos futuros, tenho a esperança de conseguir juntar a família toda para podermos celebrar, trocar presentes, comer o bacalhau e estarmos juntos.

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