A minha Angola – por Fátima Magalhães

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Acima de qualquer convulsão económica, a terra permanece igual a si própria, em beleza natural e nas caraterísticas que lhe são intrínsecas. Angola é o fascínio que não se explica. Que nos prende e permanece em nós de forma indelével se soubermos abrir a mente e o coração. A minha terra…

A imensa Angola fica situada na costa sul da África Ocidental e é banhada a oeste pelo oceano Atlântico. A sua extensão geográfica determina uma grande diversidade paisagística e climática, com uma faixa costeira árida, um planalto interior húmido, uma savana seca no interior sul e sudeste, e floresta tropical no norte e em Cabinda. Apesar de se localizar na zona tropical, o clima não é caraterístico dessa região devido à conjugação de fatores como a corrente fria de Benguela, o relevo do interior e a influência do deserto do Namibe, dividindo-se em duas estações principais: a das chuvas, que se estende de outubro a abril, e a estação seca ou cacimbo, entre maio e agosto, com temperaturas mais baixas. A pluviosidade vai diminuindo do norte para o sul do país, e as temperaturas médias anuais situam-se, normalmente, acima dos 23°C, embora no planalto central possam registar-se valores bastante inferiores na época mais fria. O clima, indiscutivelmente determinante no espírito das pessoas, é um dos fatores convidativos no que se refere a Angola.

Há uma expressão local para o apego que se cria com este país sem darmos por isso, que é a paixão e a conquista nascida por se “beber água do rio Bengo”, determinando a fixação, segundo a lenda. Para mim, que ali nasci e vivi uma parte da minha vida, é a plenitude dos espaços a perder de vista, do horizonte quase ilimitado, da diversidade esmagadora à nossa volta, é ouvir a natureza com toda a sua musicalidade, o ser invadido por um êxtase de cheiros, pelo odor único da terra molhada depois das primeiras chuvas… É ser-se subjugado pelos contrastes, pela intensidade e a magia de um pôr do sol africano, espetáculo perante o qual é difícil não se ser poeta, e não agradecer de joelhos esse privilégio… É a sinfonia bendita de um amanhecer. É acertarmos o nosso modo e o nosso pensar com o carácter do outro, diferente e, no entanto, igual a nós, com o eterno sorriso perante as circunstâncias da vida, mesmo as mais desfavoráveis. É deixarmo-nos contagiar pela alegria espontânea do povo, comovermo-nos com os olhos meigos e doces das crianças. Angola é o fogo e a paz, a harmonia e o desassossego, o sorriso e a lágrima e, talvez por isso, a força que se imprime na nossa alma…

Angola é fértil em locais de uma beleza deslumbrante, alguns deles candidatos a maravilhas do mundo. Rios imponentes, que nascem na sua maioria no planalto do Bié, cataratas majestosas, o misterioso e fascinante deserto do Namibe com a lendária welwitschia mirabilis, uma planta que só cresce nesse lugar do planeta e na Namíbia, a Serra da Leba, na Huíla, onde se encontra a famosa fenda da Tundavala, a infinidade de praias de águas quentes e areia branca finíssima, em que Benguela é também uma referência, com as aprazíveis praias da Baía Azul, Caota e Caotinha, entre muitas outras ao longo dos seus duzentos quilómetros de litoral. Excelente destino turístico, esta província pode ainda surpreender-nos com as termas naturais, paisagens rurais, monumentos e locais históricos, e uma riqueza cultural que preserva a memória coletiva do seu património, bem como a sua influência no desenvolvimento cultural do país. Espantosa e elucidativa, a existência de dez bibliotecas. Nesta mesma província, o Carnaval, com o seu famoso desfile, é uma das festas angolanas que maior número de visitantes atrai.

Luanda é uma cidade pujante e pulsante, e a paisagem da grande urbe reflete bem esta dinâmica, com muitas gruas e o matraquear constante das ferramentas, consequência dos muitos e vistosos edifícios em construção que ilustram o acelerado crescimento que a economia angolana tem registado. Em 2007, foi ali inaugurado o primeiro centro comercial de Angola, o Belas Shopping, com todas as comodidades e o cosmopolitismo de uma estrutura desta natureza. Em 2011, nascia o Luanda Fashion Center, no bairro do Golf 2, o maior centro comercial do país dedicado, exclusivamente, às áreas de moda e beleza. Um país em ascensão está ávido de coisas bonitas e diferentes, sendo a moda um sector que reflete bem esse anseio e esse gosto. Sedutora e glamorosa, com o seu clima quente e húmido, a capital de Angola é uma cidade onde se têm multiplicado os hotéis de nível superior, que albergam, na sua maioria, os muitos viajantes que ali de deslocam em negócios. Um dos seus mais bonitos cartões de visita é a marginal, ou Avenida 4 de Fevereiro, que exibe o magnífico contraste entre a beleza da Baía de Luanda e os modernos edifícios ao seu redor. Do outro lado da baía, a ilha, local onde se radicaram os primeiros colonos, encontramos uma extensa língua de belíssimas praias ornadas por coqueiros, que dispõe de uma excelente estrutura de entretenimento, com uma quantidade considerável de bares e restaurantes. Nos arredores da cidade existem muitos outros pontos de interesse turístico, como a Barra do Kwanza, a enseada de Cabo Ledo na província do Bengo, com as suas falésias e praias de águas límpidas muito procuradas pelos pescadores e surfistas, o Miradouro da Lua, um conjunto estonteante de falésias, num cenário lunar e idílico, situado a uns 40 quilómetros a sul de Luanda.

O Mussulo, banco de areia com cerca de 30 quilómetros de comprimento, formado pelos sedimentos do rio Kwanza, numa sucessão de belíssimas praias protegidas pela sombra de centenas de coqueiros, é um local de descanso e relaxamento para luandenses e visitantes. As águas calmas da baía favorecem a prática de desportos náuticos. Do lado contrário da restinga, na contracosta, voltada para o oceano Atlântico, estende-se um areal imenso e praticamente deserto. Neste enquadramento paradisíaco, quando o Sol se despede acompanhado em fundo pela batida ritmada e sensual de música angolana, observando a multidão de pássaros que regressam para passar a noite – e enquanto saboreamos uma reconfortante bebida fresca -, é possível sentir naquela paz algo semelhante à felicidade absoluta.

De referência obrigatória o Parque Nacional da Kissama, com uma área total de 9600 Km2, estabelecido em 1938 como reserva de caça, e transformado em parque nacional em 1957. A sua vegetação varia entre manguezais, mata densa, savana, árvores dispersas, catos, embondeiros e grandes zonas de arvoredo. A variedade da vegetação gera, por sua vez, uma fauna abundante e diversificada, que é possível observar em safaris organizados e onde sobressai a enorme mancha de aves. O parque conta com um estabelecimento para visitantes, uma pousada e vários bungalows.

O continente africano é considerado o berço da Humanidade. Formada por um entrelaçado histórico de povos e etnias, a atual identidade de Angola construiu-se através da aglutinação de formas e culturas, dando lugar a uma grande riqueza em termos humanos e manifestações culturais do homem, desde a música à dança, à culinária, à pintura e escultura. As suas máscaras (sobretudo a máscara azul), bem como a maioria da arte africana, não são apenas criações estéticas, mas têm um papel importante em rituais culturais, representando aspetos significativos da vida. Utilizam materiais como a madeira, o bronze e o marfim. O “Pensador de Cokwe”, talvez a peça mais famosa da arte angolana, é um primor de harmonia e simetria de linha.

No âmbito tradicional e popular, e sem perder o seu lado recreativo, também a dança é utilizada como meio de comunicação religiosa, curativa, ritual ou até de intervenção social. Manifesta-se de igual forma através de linguagens académicas e contemporâneas, para além do seu carácter lúdico. A graciosidade que normalmente nos fascina, como se fosse um talento inato presente no seu ADN, e que não conseguimos imitar através da simples aprendizagem, talvez se explique em parte pelo convívio com estruturas rítmicas desde muito cedo, já que a música é uma presença constante no quotidiano de África. A sua força, o ritmo que toma conta dos nossos sentidos, fez com que se impusesse e fosse incorporada no panorama musical de outros continentes, sobretudo na Europa. Portugal não foge a essa importação, e Anselmo Ralph, um exemplo de perseverança e profissionalismo, é hoje um digno embaixador desse movimento. Não menos importantes são as produções e coproduções audiovisuais que vão abrindo o seu caminho e marcando pontos, com parcerias em séries e novelas em que a qualidade da representação de variados atores tem revelado muito talento e feito muito sucesso.

A culinária tradicional de Angola, um misto de influências portuguesas, moçambicanas e, nos últimos anos, também da cozinha brasileira, é igual à sua alma: quente, forte e estimulante. Os cereais cultivados há séculos, tais como o sorgo e o milho, são os ingredientes mais utilizados, para além do feijão, da mandioca, do inhame, da batata-doce e, claro está, do quiabo. O azeite de dendém (óleo de palma) é importante na confeção de várias receitas. Entre os pratos mais tradicionais destaco a muamba, de galinha, carne seca ou peixe, com um molho grosso de dendém e quiabos, acompanhada normalmente pelo funge, uma base da alimentação feito com farinha de milho ou de mandioca. De mencionar ainda o calulu, a moqueca, o mufete e o sumate.

Eis apenas um resumo muito breve daquilo que Angola é, da imensidão que tem para mostrar e para oferecer. Aqui fica a esperança de que o futuro continue a sorrir a esta terra maravilhosa, digna de ser amada. Que se operem as condições e prevaleça a vontade para se estabelecer os ajustamentos que façam dela o paraíso.

Por Fátima Magalhães

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