Celebrities at Home – Catarina Furtado

Celebrities at home Catarina Furtado

1 – Que experiências positivas e negativas retira do facto de estar recolhida nesta fase de contenção provocada pelo novo coronavírus?

Do ponto de vista nacional e coletivo, creio, francamente, que nunca mais nada será como dantes. No que diz respeito à prática sustentável da solidariedade, julgo que estamos a aprender que precisamos mais uns dos outros do que pensávamos. Que teremos de estar bem mais atentos à nossa volta para as desigualdades sociais, para os mais vulneráveis. Percebemos que todas as pessoas são fundamentais na cadeia da sociedade. Não existem profissões menores. Pegando no exemplo dos hospitais, que estão a receber infetados da Covid-19, para que os profissionais de saúde possam trabalhar de forma eficaz, o pessoal da limpeza, higienização e segurança tem, também, de dar o seu melhor e ser rigoroso. Aprendemos que, tal como outras doenças, como o cancro, por exemplo, a Covid-19 não escolhe as suas vítimas pela conta bancária. Aprendemos a melhorar os métodos de teletrabalho e, nesse capítulo, acredito que vá ser uma aprendizagem irreversível. Aprendemos que o planeta estava à espera desta espécie de reset, a flora, a fauna e até os humanos. A parte terrivelmente negativa tem a ver com o impacto que terá no desemprego, na inevitável consequência dramática nas condições de vida de muitos portugueses, daqueles que não têm contratos, que estão à mercê dos trabalhos informais, na sobrevivência das pequenas empresas, nos artistas.  Nesse sentido, deveria existir, a meu ver, uma forma de nos podermos ajudar ainda mais uns aos outros. E provavelmente (espero!) vão surgir mais programas de apoio aos idosos. Do ponto de vista pessoal, tem sido um verdadeiro desafio conciliar a lida da casa, o acompanhamento das crianças, o teletrabalho (estou a escrever a minha série para a RTP do programa ‘Príncipes do Nada’ sobre refugiados) e a acompanhar os projetos da minha associação ‘Corações Com Coroa’ (temos um especificamente de entrega diária e gratuita de refeições saudáveis e energéticas nos serviços de dois hospitais de Lisboa para os profissionais de saúde, auxiliares, pessoal da limpeza e higienização). Mas tenho conseguido! E está a ser muito bonito estar muito mais tempo com os meus filhos, tentando impor regras mas a aproveitar para mimá-los muito. Sinto, no entanto, muita falta de abraçar os meus pais.

2 – Como conseguiu conciliar os seus dois projetos: o programa da RTP ‘Príncipes do Nada’ e a ‘Associação Corações com Coroa’?

As tecnologias, se forem bem utilizadas, fazem milagres e por isso creio que este tempo servirá para nos atualizarmos, por exemplo com um curso de formação intensa em plataformas, redes sociais, aplicações, tudo o que tem a ver com a tecnologia, e que nos permita fazer nascer grandes projetos da nossa secretária. Tenho tido reuniões diárias com muita gente, ao mesmo tempo, da associação e da produtora Até ao Fim do Mundo e tenho coordenado as peças dos ‘Príncipes do Nada’ a partir do meu computador, tal como a minha equipa de editores, em que cada um deles está a montar de sua casa.

3 – Catarina Furtado foi uma das figuras públicas que se juntou à campanha da Direção Geral de Saúde para fazer um apelo aos portugueses no sentido de cumprirem as medidas de isolamento vitais para impedir a propagação do Covid-19. Como foi fazer parte desta campanha?

Está no meu ADN ser solidária com as causas em que acredito. Para mim, o que mais conta nesta vida é exatamente termos consciência dos nossos privilégios e podermos ter um impacto positivo na vida dos outros. É esse amor, essa convicção que me move todos os dias a fazer mais e melhor por quem mais precisa. A minha tranquilidade e felicidade (para além da inspiração da minha família) vem exatamente dessas pequenas grandes conquistas. Ainda esta semana ajudei a lançar uma campanha para ajudar os refugiados que estão na Grécia com esta terrível ameaça da Covid-19, em termos de apoios de prevenção e médicos, nas ilhas onde estive a fazer os meus documentários, e fico muito feliz por ver que, quando tudo é transparente, as pessoas dão o que podem. A campanha chama-se “A solidariedade não faz quarentena” e é da associação portuguesa ‘Humans Before Borders’.

 A ganância irá sempre existir mas vai ter mais vergonha. E a solidariedade, que sempre existiu, terá muito mais verdade e resultados práticos. Acredito nisto.

4 – Considerando a solidariedade como a chave para o futuro, o que mais poderá ser feito?

R: Muito mais. Não querer parecer solidário, mas ser, de facto. Este é o primeiro passo e depois, cada um de nós, perceber que é tudo muito mais simples. A felicidade não vem do que se tem mas do impacto que se recebe por darmos o melhor de nós. O desenvolvimento da empatia – mas sempre com a razão a balizar, para não ser só emoção -, é essencial para uma efetiva solidariedade. As pessoas têm mesmo de perceber o que é ficar sem chão para poderem dar, sem olhar para o que deixaram de ter. Quando se dá, não se perde, ganha-se!

5 – Qual seria um futuro melhor para Portugal depois da crise pandémica?

Ficaremos mais frágeis, com uma noção mais real de que não controlamos tudo. Do ponto de vista económico, mais pobres, mas também iremos desenvolver uma serie de proteções sociais que não estavam pensadas e que desfavoreciam os mais necessitados. Acredito que sairá desta crise um Portugal mais justo e igualitário e talvez mais sustentável, mais amigo do meio ambiente, mais preocupado em consumir o produto nacional. Espero, mesmo, que não saia desta crise um Portugal mais xenófobo porque inevitavelmente (e com razão) tivemos de fechar as fronteiras, e pelo facto de o vírus ter vindo da China. Não precisamos de xenofobia, não precisamos de racismo. Precisamos de continuar embalados neste espírito de união nacional e mundial.

Saiba mais em http://www.coracoescomcoroa.org

Share on facebook
Share on twitter
Share on pinterest
Share on linkedin

/ Artigos Relacionados

Artigos Relacionados

Victor Borges

Perfecionista por natureza, pintor por intuição, gestor e criativo por paixão e ambição. Victor Borges

/ Artigos Recentes

Artigos Recentes