A F luxury, foi até Paris para entrevistar o artista David Shrigley x Ruinart

A F Luxury, a convite da EmporSpirits , foi até Paris e Reims para conhecer tudo o que está por trás da iniciativa artística David Shrigley X Ruinart.

“Para fazer arte sobre a produção do champanhe é preciso empreender várias visitas à região do champanhe; é preciso visitar os crayères, os locais e instalações de produção; e é preciso fazer perguntas às pessoas que trabalham lá e ouvir com muita atenção o que dizem. E, o mais importante, deve-se beber um pouco de champanhe.” adianta David Shrigley, artista britânico.

Após uma visita às caves da Maison, tivemos o privilégio e a oportunidade de entrevistar Shrigley que, com o seu olhar penetrante e muita curiosidade, estudou os segredos bem guardados que se escondem atrás da criação do champanhe.

F Luxury: A Ruinart, a casa de champanhe mais antiga do mundo, comissionou-o como artista de renome para apresentar a sua própria visão da Maison. Como foi  adaptar a sua visão e obra ao faire de vivre pelo qual a marca tanto se distingue?

David Shrigley: Acho que foi um sucesso, caso contrário eu não estaria aqui. A forma como trabalhei foi a de tentar experimentar tudo o que estava a acontecer na Ruinart, desde conversar com o mestre da adega sobre como o vinho é feito, que eu realmente desconhecia, até visitar as adegas, as vinhas, tomar um pouco de champanhe e aprender muito sobre a terra. Além disso, para pensar nas mensagens de uma marca, porque há declarações que se fazem ao isolá-las, de alguma forma, precisava descobrir o que elas significavam. Quando eu estava em Reims, tinha um processo de escrita, toda uma longa lista de declarações, e escrevi algumas coisas sobre isso, escrevi, inclusive, alguns poemas sobre tudo: as bolhinhas, as garrafas, as uvas e o solo, as lagartas e as abelhas, o tempo, tudo… E então, de alguma forma, passei alguns meses apenas a fazer desenhos. Talvez tenha feito uns 100 desenhos e eles apenas apresentaram 30 no projeto. Então, é como se eu tivesse feito uma declaração sobre os pensamentos que me assolaram com o que descobri e depois foi toda uma proposta: que tal este ou aquele? E na Ruinart eram do tipo: talvez esse funcione. Foi muito interessante ver as declarações, as imagens e os textos de que eles gostaram e que escolheram. E verificar que alguns que julguei serem do seu agrado, e não foram, bem como outros que pensei que não gostariam, mas vieram a gostar. Foi, por isso, um processo interessante e um pouco como uma viagem de descoberta. Sei que fiz imenso trabalho mas, de alguma forma, foi fácil para mim.

F Luxury: Sendo David Shrigley conhecido pelo seu estilo humorístico e pelo seu traço bastante distintivo, como encara o mundo do luxo onde a marca se insere?

David Shrigley: Temos de ter presente que Ruinart é sinónimo do mundo das artes. E é uma marca que é patrocinadora de feiras de arte. Ora, feiras de arte, como a Art Basel, são muito importantes para artistas, galerias e para todos de um modo geral. Porque é assim que ganhamos a vida, é isso que é a base para nós – como tal, trata-se de uma marca que eu já conhecia muito bem. E há aquele momento em que se bebe o champanhe, que é um momento chique na nossa vida, e que nos acompanha nas feiras de arte, conversando com colecionadores, conversando com curadores, faz parte daquele momento de negócios, além de ser glamoroso. Porém, não é a realidade do dia a dia de um artista, pois este costuma estar no seu estúdio, coberto de tinta ou qualquer outra coisa. Portanto, eu estava bastante confortável com isso, mas o interessante foi comparar o seu posicionamento, o de uma marca ao lado de outros produtos de luxo, como roupas, joias, relógios, carros, etc, com a realidade de como o champanhe é feito, que é agricultura. Trata-se de um produto natural que nasce na videira, uma pequena coisa que cresce dependente do clima, das abelhas, do solo e das pessoas que trabalham lá, a usarem botas wellington e a ficarem cobertas de lama ao coletar as uvas. Portanto, há uma polaridade real entre isso e o produto final de luxo. E, no meio, obviamente, há muitas pessoas, como o mestre da adega, que trabalham para fazer o vinho com eficiência, com uma enorme responsabilidade num procedimento difícil. É realmente interessante pensar sobre esse processo, essa polaridade. Para mim, é importante manter esta conexão, tal como quando vemos algo mais abstrato, como um relógio Bvlgari: de alguma forma, é profundo em experiência e luxo, mas não é um produto natural. É algo que é projetado, fabricado na Suíça. E o champanhe é diferente, natural além de muito sustentável, pois a Ruinart fá-lo dessa maneira, deliberadamente, porque é muito importante hoje em dia.

F Luxury: Até que ponto a colaboração com a Ruinart pode afetar a sua arte daqui em diante?

David Shrigley: Afeta, porque é um champanhe realmente bom (risos). Aprende-se sempre algo em tudo o que se faz e, às vezes, é preciso fazer um projeto com alguém, é necessário sermos forçados a fazer algo, caso contrário não temos nada para fazer arte, ou apenas fazemos arte dos livros que lemos ou algo assim. Ter e viver experiências reais e ver como a máquina funciona é fascinante. E de que outra forma poderia eu ter isso na minha vida quotidiana? Às vezes, sinto que existe um equilíbrio entre a criatividade e as ‘coisas reais’ que vou experimentando e que formam parte da minha criatividade. É como se estivesse a comentar uma vida que não vivi. Por isso, tais experiências são sempre muito valiosas.

F Luxury: As suas ilustrações foram vistasem  capas de álbuns para músicos como David Byrne, Franz Ferdinand e Bonnie Prince Billy. Como definiria o seu estilo? Considera-se um novo representante da Pop Art?

David Shrigley: Provavelmente, tenho algo a ver com a Pop Art, no sentido de que ela é formada por uma conceção de ideias mais do que por ilustração ou um estilo ilustrativo. Estou mais interessado em mensagens e na forma como imagens e palavras se reúnem, do que em criar uma arte estilizada atraente e realmente bonita. Não é, de todo, o que eu faço. Tenho um traço parecido com o de uma criança, mas isso acontece porque quero comunicar muito diretamente no sentido gráfico. Porém, não estudei ilustração, estudei artes plásticas e é daí que venho. Os meus heróis são Marcel Duchamps e Andy Warhol e não cartunistas ou ilustradores. Nesse sentido, posso afirmar que o meu estilo é uma ausência de estilo. Estou mais interessado em ideias e comunicação

F Luxury: É invulgarmente alto: possui um 1,97m. Ver o mundo sempre a partir de uma perspetiva mais elevada condiciona a sua forma de ver as coisas e de fazer a sua arte?

David Shrigley: Sobre ser alto, há coisas boas e coisas más (risos). Por exemplo, é preciso ter os móveis no lugar certo. O meu estúdio tem um banquinho particularmente alto que veio da Escandinávia, onde as pessoas altas vivem. Tem também um quadro de junção muito alto. Pratico ioga, entre outras coisas, mas quando vou ver bandas ao vivo, o que faço com frequência, posso estar de pé bem atrás e consigo ver bem, o que é realmente bom.

F Luxury: Quais são os seus próximos projetos?

David Shrigley: Devido às circunstâncias atuais com a Ruinart, que determinam o que faço, acho que viajarei muito durante alguns meses, como ir a Tóquio para uma exposição. De resto, acho que será uma oportunidade para ficar em casa, o que não é uma coisa assim tão má… e ficar com os meus animais de estimação.

Através dos seus desenhos, néons e esculturas, David Shrigley oferece uma jornada que é, ao mesmo tempo, acolhedora e singular, provocando conversas surpreendentes sobre a natureza e o processo de produção do vinho. As suas obras fazem-nos lembrar os desafios ambientais do dia-a-dia, aos quais a Maison Ruinart está atenta. E o seu humor é, sem dúvida, um dos melhores meios para espalhar a consciência.

“O meu trabalho é gerado através do processo de criação. É assim que eu trabalho. Eu adapto-me. Eu nunca tenho um plano”, conclui David Shrigley.

Por João Libério

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