O regresso do comércio do luxo

O poder da multiplicação do novo setor premium

O comércio do luxo está a recuperar, mas a perceção do mesmo ganha agora novos contornos. O novo luxo afasta-se de uma ideia de ostentação. O requinte, a exclusividade e o bom-gosto fazem parte de uma tendência que tem conquistado todas as áreas. Definido desta forma, o luxo nunca nos abandonou.

O setor do luxo vale, atualmente, cerca de cinco por cento do PIB em Portugal, graças aos 97,5 milhões de euros em vendas, obtidos, em 2018, pelo mercado do retalho deste segmento; números, que, de facto, impressionam. Após a saída da troika, em 2014, e com o aumento da confiança por parte dos consumidores, o consumo dos luxury goods (bens que não são considerados de primeira necessidade, mas muito desejados) obteve um aumento elevado: segundo os dados da provedora de pesquisa de mercado Euromonitor, o mercado do retalho de luxo em Portugal vale, atualmente, mais dez milhões do que há dois anos. O poderoso grupo LVMH, que engloba marcas como Louis Vuitton, Tag Heuer, Moet & Chandon, entre outras, contribuiu decisivamente para este crescimento, agregando 24,4 por cento de todo o mercado. Outras marcas, como a Prada (com 17,8 por cento) ou a Hermès (com 13,5) conquistaram uma significativa quota de mercado. Se a estes números se somarem os dados de compras de automóveis de gama alta, casas, viagens e experiências de luxo, os valores alcançados são significativamente mais elevados – contudo, nesta área, não existem dados conclusivos e consolidados para Portugal.

Empresas como a Quintessencially, dedicada aos assistentes de luxo, conceituada a nível global, abriu recentemente em Portugal e, há apenas um ano, nasceu a Theritage Concierge, que tem como objetivo atender aos pedidos mais exclusivos e, por vezes, quase impossíveis (cerca de 30 por cento dos clientes que recorrem a este tipo de serviço têm nacionalidade portuguesa, mas optam por permanecer no anonimato ou discretos). Mas quem são os portugueses que compram as principais marcas de luxo, de Louis Vuitton a Gucci, de Patek Philippe a Porsche? Futebolistas, figuras da TV… e mais não se sabe. A razão aponta para os anos mais difíceis, altura em que as pessoas com mais posses admitiam sentir pudor em ostentar a sua riqueza. Hoje, o consumo de artigos de luxo aumentou, mas quando o cliente se desloca a uma loja de luxo, o atendimento de topo é, normalmente, efetuado numa zona privada, onde até se oferece champanhe a quem está a ser atendido.

A exclusividade passa pela marcação de um atendimento privado e personalizado em espaços da Avenida da Liberdade, tal como acontece na Stivali, espaço multimarca que vende Chanel, Valentino ou Elie Saab, entre outras, e onde os clientes podem aceder diretamente à loja através da garagem, sem serem vistos. A confidencialidade é, sem dúvida, um ponto comum, que liga as várias áreas no setor do luxo. O mesmo acontece com as joias e os relógios, onde lojas como a Torres Joalheiros, a Boutique dos Relógios Plus ou a David Rosas dispõem de serviços private, disponíveis a qualquer hora do dia.

O mercado automóvel não é exceção. Aliás, este é o setor em que as vendas de marcas de luxo mais cresceram nos últimos anos. De acordo com os números da ACAP – Associação do Comércio Automóvel em Portugal, referentes a 2018, os portugueses compraram mais dez mil carros das principais marcas premium, como Lamborghini, Bentley, Ferrari, Lexus, Jaguar, Porsche ou Land Rover, comparativamente com os dados disponibilizados em 2013. A Lamborghini foi a marca que mais cresceu no ano transato, vendo as suas vendas aumentarem 600 por cento, neste período. A marca aposta numa relação de proximidade com os seus clientes, que inclui uma visita à fábrica em Sant’ Agata Bolognese, em Itália, onde é possível ao interessado configurar o exemplar que deseja.

UM UNIVERSO EM CONSTANTE MUDANÇA

As marcas de luxo a nível global têm sofrido várias alterações. A norte-americana Michael Kors adquiriu a marca britânica de calçado Jimmy Choo; no ano passado, a mesma Michael Kors havia comprado a Versace, icónica marca italiana, fundada em 1978. A Burberry é outro exemplo de uma marca de luxo, que, muito recentemente, exemplificou, na prática, o “preço” da exclusividade: em 2017, a marca britânica destruiu todos os produtos que não conseguiu vender, queimando roupas, acessórios e perfumes, apenas com o objetivo de se proteger, impedindo que os seus desenhos e modelos fossem vendidos por um preço inferior ao seu real valor, ou, pior, roubados e transacionados no mercado paralelo (a energia gerada a partir dessa queima foi armazenada e reaproveitada, através de um processo não poluente). A Burberry enfatiza que, nos últimos anos, tem efetuado um esforço para se fixar como uma referência no mercado mundial do luxo, procurando recuperar a exclusividade que a caracteriza, o que implica evitar, sob quaisquer circunstâncias, cópias, imitações ou qualquer desvalorização da marca e dos seus produtos. Neste nicho, a preferência do público tem características oscilantes, o que se reflete nos resultados de faturação. Um bom exemplo disso mesmo surge com a Gucci que, nas últimas décadas, enfrentou instabilidade e assume-se, nos nossos dias, como uma das principais marcas no segmento de moda.

Atualmente, o setor do luxo caminha em direção a opções mais éticas, com os públicos mais jovens, em particular a geração millennial, a assumirem um papel preponderante. De forma cada vez mais acentuada, é possível perceber como as principais marcas estão em busca das melhores soluções, de forma a atender aos desejos destes novos consumidores – estima-se que, em todo o mundo, mais de 320 milhões de pessoas têm acesso a algum artigo de luxo. O mercado em Portugal respeita esta tendência de crescimento, com destaque para os automóveis personalizados, às experiências, como refeições confecionadas e servidas por estrelas Michelin. O consumo de luxo está de volta… e ainda bem!

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