Ana Moura, fadista – à conversa com F Luxury

Artista

Passeia pela tradição livremente e transforma em Fado qualquer melodia que encoste a voz. Leva o Fado além-fronteiras e confessa “adorar a vida” que tem. Dividiu palco com ícones da música internacional, chegou ao primeiro lugar nas tabelas World Music em vários países e presenteia-nos agora com um novo álbum «Moura». Falamos de Ana Moura…

Quem é a Ana Moura para além do Fado? A Ana Moura dos palcos é igual à Ana Moura da esfera privada?
Costumo dizer que já não consigo distinguir, uma vez que dediquei a minha vida inteira à música. São opções que se fazem, obviamente acabo por abdicar de muita coisa, mas no final de contas o balanço é positivo. Adoro a vida que tenho, sinceramente.

Aparenta estar muito focada na carreira… para quando a vontade de ter uma família?
Tenho dois gatos que acabam por ser a minha família (risos). Gostava, obviamente, de construir família, mas penso sempre que não é a altura certa e também é algo que não deve ser programado. Desta forma, dou sempre prioridade à minha carreira, aliás, não gosto muito de dizer carreira, pelo amor que tenho à profissão, prefiro chamar «o meu caminho».

Cresceu num ambiente musical. Podemos dizer que a sua paixão pela música foi uma questão de influência?
Em minha casa ouvia-se muita música, os nossos fins-de-semana eram passados em tertúlias, com amigos. E o meu pai tocava sempre guitarra e cantava em dueto, com a minha mãe, vários géneros de música, desde música portuguesa, brasileira e até angolana, também devido à ligação que os meus pais têm com África, especialmente Angola. A minha mãe nasceu em Angola e o meu pai foi para lá muito novo.

Já atuou em Angola, como foi essa experiência?
Foi espetacular. Cresci a ouvir os meus pais a falar em Angola e, portanto, é como se as experiências deles fossem as minhas. Cantei num lugar lindo, à beira da praia, estava esgotado. Diverti-me imenso e as pessoas sentiram isso. Em Outubro, planeio lá voltar.

Como se sente por fazer parte de uma geração de fadistas que contam com grande reconhecimento internacional?
Muito feliz. Quando oiço fadistas de uma outra geração, que adoro, tenho alguma pena de não ter feito parte dela, para as ouvir ao vivo. Hoje em dia, há uma geração incrível, cada um com uma identidade e personalidade muito distinta. Por vezes, juntamo-nos todos numa casa de Fados e fazemos noites esplêndidas. Fazer parte desta geração é mesmo um orgulho.

Há muita competição no seu meio artístico? Como convive o Fado tradicional com o Fado contemporâneo?
Acho que já houve mais. Os artistas estão mais confiantes no seu papel. Em relação ao Fado tradicional e ao Fado contemporâneo, acho que eles convivem bem. Por exemplo, no meu caso, nos Fados tradicionais acho que é bom trazer algo de novo, portanto, nesse ponto de vista acabam por se fundir bem.

Que diferença existe em cantar numa casa de Fados, que é um espaço intimista, e cantar para grandes públicos e salas?
São atmosferas totalmente distintas. Numa casa de Fados, nunca prevemos o que vamos cantar, apetece-nos cantar um determinado Fado e cantamo-lo. Vivemos da espontaneidade do momento. E depois há aquela beleza, o lado misterioso, que é provocado pela intimidade com o público. Não havendo aparelhagem, é tudo natural. Quanto a cantar para grandes públicos, pede outra coisa, pede alinhamento, um outro cuidado com o espetáculo. São experiências completamente diferentes, mas ambas especiais e gratificantes.

Dividiu o palco com ícones da música como Prince e Mick Jagger. Que significado teve para si?
Foram momentos extremamente importantes porque foram surpresas que a vida, de repente, me ofereceu. E ensinaram-me muito. Ainda mantenho uma relação de amizade com ambos, amizade que me tem trazido imenso conhecimento e que acabo por refletir também na minha música.

Que músico gostaria de um dia vir a cantar?
Há muitos músicos e cantores que gostaria de um dia poder cantar, por exemplo, o Stevie Wonder, adorava.

O seu primeiro álbum «Guarda-me a vida na mão» foi lançado em 2003. Hoje, encontra-se já no seu sexto álbum «Moura». O que mudou nestes 13 anos?
Muita coisa mudou (risos). Costumo pegar numa frase de Sophia de Mello Breyner que diz “que eu viva na surpresa dos instantes ”e é assim que tenho vivido. Não sou uma pessoa de traçar demasiados objetivos. Gosto realmente de viver nessa surpresa, dos instantes que a vida me vai oferecendo.

O anterior álbum, «Desfado», mantém-se no top de vendas em Portugal e chegou ao primeiro lugar das tabelas de WorldMusic em Inglaterra, Espanha e EUA. Que significado têm para si estes resultados?
Deixa-me extremamente feliz porque foi um disco bastante arrojado para mim. Não só em Portugal, como no estrangeiro. As pessoas já têm uma ideia muito própria do que é o Fado e de repente, uma fadista fazer algo diferente é um risco, mas um risco com uma sensação de grande liberdade. Ser recebida desta forma, faz-me sentir que vale sempre a pena irmos em frente naquilo que verdadeiramente acreditamos.

A escolha do nome de um álbum deve ser algo especial e difícil ao mesmo tempo. Como surgiu este nome «Moura»?
Neste disco, há dois temas que têm o nome Moura, um deles da autoria do José Eduardo Agualusa, com uma música de um músico angolano, TotySa’Med, «Moura» e o «Moura Encantada», com letra da Manuela de Freitas, onde se faz uma ligação entre as Mouras encantadas e a minha própria analogia. Depois, pesquisando sobre o nome e as lendas das Mouras encantadas, reparei que tinha muito em comum com a mensagem que queria transmitir.

A Ana Moura volta a trazer para o Fado gente que não é do Fado… Porquê essa escolha?
Portugal está cheio de talentos na composição, a escrever brilhantemente, que nos definem, que mostram o que somos hoje em dia. Gosto de desafios, como por exemplo, o Kalaf. Que ninguém espera…

«Moura» sugere ser uma continuidade do álbum «Desfado», pois parece manter a mesma linha de «encaixar» felicidade ao Fado… O que distingue estes dois álbuns?
São produzidos pelo mesmo produtor, cantados pela mesma pessoa (por mim) e repetem alguns compositores. Contudo, musicalmente,o álbum «Moura» acabou por ficar um disco muito diferente. O «Desfado» é um álbum mais cru, com instrumentos que refletem essa crueza. Este disco é mais elaborado, os teclados não são «vintage» e têm muitos pormenores que fazem toda a diferença.

“…quando a noite chega ao fim, vou à procura de mim e não encontro ninguém… E sem pensar em mais nada, fecho os olhos e canto…” A música é a solução que encontra para enfrentar os seus problemas?
Sem dúvida que é. É através da música que se faz essa catarse. Há pessoas que me perguntam: “Como consegues cantar quando estás extremamente triste?” – a música serve para isso mesmo. O meu canto, o meu género, pede essa entrega emocional.

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