Alexandra Lencastre, atriz – à conversa com F Luxury

 

Uma das mais acarinhadas atrizes portuguesas

Quem é a Alexandra Lencastre?

Um “work in progress “ (risos). “Nunca se mergulha duas vezes na água do mesmo rio” – Heráclito. Assim como não é possível revisitar uma pessoa e encontrá-la exatamente na mesma… mas a essência perdura, o que é o mais importante.

As circunstâncias vão alterando e deixando marcas exteriores ou profundas, que fazem da pessoa um todo, que para sempre se renova e constrói!

 

Ter estudado Filosofia ajudou-a a ser atriz?

Felizmente tudo na vida ajuda a ser atriz, tendo em conta que o trabalho do ator tem como base o seu corpo, o seu físico e a sua alma, sendo que as suas experiências só podem enriquecer o seu trabalho. A partir das memórias afetivas que enaltecem também os 5 sentidos (visão, tato, olfato, audição e paladar), podemos dar vida a personagens com vivências idênticas ou mesmo antagónicas. No estudo de Filosofia podemos confrontar-nos com as questões essenciais do ser, do estar e do sentido da vida. Também as várias correntes filosóficas, principalmente os autores Existencialistas, como Jean Paul Sartre, Heiddeger, etc. despertam-nos de forma peculiar – dolorosa, mas absolutamente fundamental! Como estudante à procura da verdade da existência, encontrei uma verdade paralela no palco. Foi um caminho lógico, apesar de não parecer…

 

Se tivesse de escolher entre cinema, teatro ou TV, qual escolheria?

Não escolheria. Ou melhor… aos 19 anos escolheria teatro. Aos 29 Teatro e Cinema. Aos 49 Teatro, Cinema e Televisão. Destas formas diferentes de experimentar técnicas complementares da arte de representar, surgem respostas inesperadas e o autoconhecimento assim como a “musculação” do ator se torna mais completa.

 

Falando da Pilar, como é que o público tem reagido a ela, visto que é extremamente polémica?

Confesso que essa questão foi várias vezes colocada na mesa de ensaios e reuniões com a própria autora presente! Fomos construindo uma – Pilar – que, sendo polémica, obviamente tem um lado de humor que empresta à personagem, simultaneamente com ingenuidade e autenticidade… sem rodeios, sem artimanhas. Nesse sentido, penso que a personagem foi bem entendida pelo público e até tem provocado risos e várias frases dela são repetidas pelas ruas. Tornou-se um “disparate” indispensável. Fico contente com isso!

 

Aceitou este papel, para que de certa forma, ajudasse assim, a denunciar a discriminação?

Sim, pode ter a certeza que sim! Tendo noção da grande responsabilidade que a Plural e a TVI me colocaram nas mãos, mas sendo um desafio tão interessante e necessário, mais do que um prazer ou dever, torna-se um imperativo categórico – denunciar pessoas que tentam ainda mascarar preconceito e descriminação. Estas pessoas devem ser denunciadas. A novela é um ótimo meio para o fazer, visto que é um produto muito transversal, e tendo três milhões de espectadores diários, tem uma função formativa e pedagógica, essencial no público que acompanha a história, e que muitas vezes, sem se dar conta, está a refletir seriamente sobre estes assuntos que muitas vezes só são abordados de forma superficial. Nesse aspeto esta novela é pioneira em denunciar certas situações polémicas, com uma boa estrutura e um excelente resultado.

 

Foi estreante em solo angolano? Como foi recebida?

Tão bem recebida… Tendo esta química com África – Vou e não quero voltar… Será ancestral? – creio que sim, de tão forte que é a emoção.

 

Que tipo de papel gosta mais de fazer?

Estou a adorar e a odiar esta Pilar. É ela o meu grande amor / ódio neste momento! Mas gosto mais de personagens densas, complexas, dramáticas… identifico-me mais! Tenho saudades de fazer Cinema e personagens de época, personagens históricas. Gostava que me aparecesse brevemente um desafio assim. Deus queira…

 

Conta com quase 30 anos de carreira. Que palavra ou frase simboliza toda a sua carreira?

Como dizia o Mick Jagger dos Roling Stones: 10% talento, 90% trabalho! E muito amor, dedicação e capacidade de sacrifício!

 

É fácil ser fiel e estar num mundo real, com tantas personagens por si construídas?

Boa pergunta! Difícil resposta… Nada fácil… por vezes temos que criar “compartimentos estanques” para não “contaminar” por exemplo a nossa família com a carga pesada que trazemos de dias, meses, de gravações com cenas de choro, de violência… o contrário também é necessário. A concentração deve ser a 300% para deixarmos para trás o chamado mundo real e entrarmos no ficcional. Sendo que este último também passa a ser verdadeiro e real… Cada profissão tem os seus riscos. Um deles, sendo atriz, é confundir os dois mundos. Há que saber construir uma personagem – vivê-la, vê-la crescer e matá-la sem que isso nos afete como indivíduos. Para isso é fundamental uma escola – no meu caso a Escola Superior de Teatro e Cinema!

 

A Alexandra demonstra-nos uma força incrível e um lado de sonhadora. Podemos dizer que é uma força de mulher e uma alma de criança, que gostava de nunca ter crescido e / ou ter tido mais pessoas que tivessem evoluído de igual forma a seu lado?

Que engraçado – na vossa gentil pergunta já deram a resposta – Sim! Podemos dizer que tenho uma força de mulher numa alma de criança. Mas graças a Deus sempre rodeada de meus meus irmãos – atores, diretores – professores, quem nos veste, nos maquilha, nos penteia, quem escreve por e para nós – a família toda dá-nos essa força e asas para voar!

 

É fácil ser mãe, uma mulher inteligente e trabalhadora, neste século XXI tão cruel?

 É cruel! É demais! É injusto! É preciso! É bom! É maravilhoso! É amor!

 

Que conselho deixa a quem queira ingressar nesta carreira?

Faça audições para o Conservatório Nacional, Escola Superior de Teatro e Cinema, estude, leia, analise e pense duas vezes. Boa sorte!

 

Veja a sua produção

 

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