João Rolo, estilista – à conversa com F Luxury

 

Um dos mais famosos estilistas portugueses

Ao completar 30 anos de carreira, é um dos mais conceituados estilistas portugueses. Este ano, foi o estilista com mais vestidos na red carpet do “Festival de Cannes”. João Rolo apresentou, no Palácio da Foz, a sua primeira colecção de noivas. Aproveitámos a oportunidade para descortinar este grande senhor da criação.

 

Associamos muito o João Rolo à perfeição. Valentino é uma inspiração para si?

Sem dúvida. Ainda hoje é uma grande inspiração. O Valentino é precisamente tudo isso. É um estilista com vestidos muito clássicos, mas com um toque arrojado e contemporâneo, um pouco como eu, que adoro o barroco e o moderno e dessa simbiose, nasce o meu trabalho. Tal como o meu atelier que é a junção do barroco com o moderno e Valentino para mim, sempre foi um génio e uma pessoa que sempre me identifiquei.

 

Foi a primeira vez que o João nos presenteou com uma colecção de noivas. Sabendo que sempre fez noivas, porquê agora?

As primeiras peças que comecei a fazer para as minhas amigas, foram de noivas e gostava muito, continuei a fazer, mas em situações pontuais. Depois percebi que as clientes que me compravam vestidos de cerimónia, ficavam com pena de as filhas já terão comprado os seus vestidos de noiva, pois não sabiam que eu também fazia noivas e numa forma de eu relembrar, decidi fazer um desfile só de noivas, algo que nunca tinha feito de forma integral e desta maneira, puder expor o meu trabalho e dar visibilidade a esta minha linha, não só por cá, mas também ao meu mercado de angolano.

 

Tendo sido o primeiro estilista a entrar em Angola com noivas, tem conseguido manter a continuação de procura neste segmento?

Sim. A maior parte dos vestidos de noiva que eu tenho produzido, nos últimos anos, é para o mercado angolano.

 

Quem é a mulher que veste João Rolo?

São as mulheres que gostem de glamour, que são chiques e prezam por estar elegantes… Essas mulheres são mulheres “João Rolo”, pois “João Rolo” é tudo isso. Emprego sempre todos esses adjetivos nos meus vestidos e também em passerelle… É classe, é requinte, é luxo, algo que abrange todas as mulheres.

 

No caso de exportação, é possível haver o envio de uma peça, para qualquer país, sem que tenha de se deslocar para fazer uma prova do vestido que desenhou para a cliente?

Sim, aliás, cinquenta por cento (50%) do meu trabalho para Angola, é feito assim. Trabalho a prova em pano cru, e guardo a mesma, e a partir daí consigo fazer tudo, desde que não haja grandes oscilações de peso. A cliente liga-me, diz-me o que pretende, faço e envio o desenho consoante a descrição da cliente, depois do OK é só enviar o vestido. É de salientar, que ao longo destes anos acabei por ter presente, a forma da mulher angolana, que é completamente diferente da portuguesa.

 

Associamo-lo muito a um estilista de alta costura, contudo existe um criador muito mais abrangente, como os tapetes que cria e vende imenso para o estrangeiro.

É verdade. Tenho a “João Rolo Home Collection” que vem em cinquenta e seis (56) países do mundo, tornando-me a marca portuguesa mais internacional. Este foi um projecto que surgiu e sem querer criei uns tapetes que não existam no mundo inteiro, ao não seguir as formas tradicionais rectangulares. Decidi criar algo novo, uma lufada de ar fresco com tapetes que saiam do próprio tapete, dei formas mais irregulares. Fui muito bem recebido e respeitado no estrangeiro, e conto com feiras desde Hannover, Miami, Birmingham, Milão, entre outros. O país que mais vendo, é para Espanha e os tapetes estão à venda em todos os “El Corte Inglès”, “Roche Bobois” e conto com  vários outros representantes. Paralelamente, fiz mobiliário, sofás, colchões, serviços de porcelana e faqueiros.

 

Consegue dissociar João Rolo pessoa do profissional?

Acho que é difícil dissociar um do outro e a marca vale por isso mesmo. Existe nela, uma identidade, um rosto e uma pessoa que dedica várias horas do seu dia, a dar continuidade tudo o que representa esta marca. Sou eu quem, atende a cliente, faço a modelagem, corto e provo. As minhas costureiras colocam as minhas peças em pé e depois eu dou as formas, algo que exige muito de mim e todo esse amor dado às peças, toca às minhas clientes. No fundo, tento presentear as minhas clientes, não só com o modelo do vestido bem como, com toda a emoção que coloco nas minhas criações e isso, contagia.

 

Houve alguma altura em que pensou deixar esta profissão?

Não, impossível. Acho que nesse dia morria. Já houve propostas para comprar a minha marca, mas esta marca só tem valor comigo e eu sou a minha marca, logo, nunca irei desistir de ser estilista. É quem eu sou!

 

Conta com desfiles em diversos países. Fale-nos do seu legado em Angola.

Fui dos primeiros a fazer “Moda Luanda” e tenho sido convidado para fazer “Belas Fashion”, onde encerro sempre os desfiles. Quando vou a Angola, aproveito para ir a programas de televisão, e assim deixar presente o meu trabalho mais vincadamente.  Tem sido óptimo, pois tem sido um país que tem adorado as minhas criações e isso deixa-me feliz.

 

O João adora crianças. Será que haverá, para breve, uma colecção direcionada para as mesmas?

Sempre tive em mente fazer um “João Rolo Kids” e “João Rolo XL”. O que gostava muito de fazer era “João Rolo Homem”, mas isso pede uma grande logística. Na altura em que tive lojas de pronto a vestir, onde vendia roupa para homem e senhora, homem era sem dúvida, a roupa que tinha mais saída e isso é um bom indicador. Faço fatos de homem, mas muito esporadicamente. Adoraria fazer roupa de criança, mas neste momento não consigo ter tempo para avançar com essa estrutura.

 

A mulher africana é mais vaidosa que a portuguesa?

É sim, mais vaidosa, mais extrovertida, é uma mulher que gosta de festa, de sair, de se arranjar mesmo para ir trabalhar e comparando com a mulher portuguesa, sim a angola, é mais vaidosa. É também uma mulher que se identifica muito com o meu trabalho, tal como eu me identifico com ela.

 

Já falámos de projetos e do quão abrangente é a sua marca. E sonhos? Já realizou todos?

Não, risos! O sonho comanda a vida e quando eu acho que já fiz tudo, eis que o universo resolve trazer mais qualquer coisa na minha vida, que me faz renascer e concluir que, ainda existe tanto para fazer. Não, ainda não fiz tudo! Posso afirmar que neste momento atingi o topo em Portugal e no estrangeiro… Agora é que me apetece começar! Estes trinta (30) anos de carreira foram feitos em laboratório, e agora, ao fim dos mesmos, é como se tivesse renascido. Estou a pensar e projectar a minha intercionalização, que começou pelo “Paris Fashion Week” e agora fui convidado para apresentar a minha colecção no mês de Julho, no “Mónaco Fashion Week”, o que é de ficar satisfeito!

 

Uma palavra que o caracterize…

Glamour! É uma palavra que me caracteriza e da qual não consigo viver sem. Costumo dizer, que se tivesse que ter vivido casa mais humilde, apanharia todas as pratas dos maços de cigarro e faria dela, um lar prateado e luminoso. Independente do factor financeiro, devemos viver em elegância e não é preciso muito para fazer coisas bonitas. Para mim, glamour e elegância é atitude, é algo que vem de dentro, é algo que todos temos e só precisamos de a trabalhar.

 

Dentro do seu tempo intenso e exigente, consegue ter tempo para si?

Há duas coisas que tento sempre fazer, tentar dormir oito horas por dia e estar com as pessoas que amo. É importante descansar a mente para criar. Independente da duração do meu trabalho, eu consigo arranjar sempre tempo para tudo. Ao dar tanto de mim às minhas criações, depois tenho a necessidade do mimo, do carinho, de estar com os meus pais, com amigos e divertir-me.

 

É um homem feliz?

Sim, completamente! Sou uma pessoa de bem com a vida, tanto a nível profissional como pessoal.

 

Num mundo tão austero, onde nem sempre podemos sonhar e concretizar as ideias que temos. Qual a mensagem que deixa para quem desiste dos sonhos que nem passam a projectos?

Desistir dos sonhos é atraiçoar a nós próprios. Quando têm um sonho, não devem desistir dele, independente de ser o oposto da profissão que praticam neste momento. Devem projectar, concretizar e trabalhar os vossos sonhos. Podendo ou não trabalhar neles fisicamente, não devem nunca desistir, nem deixar morrer essa vossa verdadeira aptidão natural.

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