Miguel Vieira, designer de moda – à conversa com F Luxury

 

O designer de moda português que recebeu a Comenda da Ordem Infante D. Henrique

Lutador e apaixonado pela sua profissão, Miguel Vieira é um dos mais brilhantes designers de moda portuguesa. Com mais de 25 anos de carreira, o criador já recebeu a Comenda da Ordem Infante D. Henrique, exporta atualmente para o estrangeiro 80% das suas coleções e confessa que ainda tem muitos projetos que lhe faltam fazer.

 

Quem é Miguel Vieira?

Miguel Vieira é um ser humano igual a tantos outros, a tantos milhões que existem neste planeta, mas sobretudo, em termos profissionais, é uma pessoa muito feliz quando teve de decidir a sua ocupação encontrou a realmente a profissão na qual se sente bem e que gosta muito. É sobretudo uma pessoa lutadora, que se dedica muito à profissão, bastante trabalhadora e que faz tudo com muita paixão.

 

Conta com mais de 25 anos de carreira. O que mudou no mercado da Moda em Portugal desde o seu começo até aos dias de hoje?

Mudou muito! Mudou para melhor! Há 25 anos atrás existiam os cabeleireiros, existiam os manequins, existiam todas essas profissões, no entanto não estavam tão profissionalizadas, o que significa que se nós precisássemos de um manequim tínhamos de contacta-lo diretamente; as agências estavam a tentar organizar-se. Havia cabeleireiros maravilhosos, no entanto não eram especializados na área da moda. Havia maquilhadores que maquilhavam pessoas para casamentos, festas, etc, mas não especificamente para a área da moda. Havia jornalistas que não estavam vocacionados nessa área. Ou seja, ao longo destes anos todos, vários intervenientes nesta área foram-se profissionalizando e daí que, hoje em dia, obviamente são um suporte forte para cada designer de moda.

 

Qual é a opinião em relação à moda portuguesa quando comparada à estrangeira? Quais são as maiores dificuldades com que os criadores portugueses se deparam?

A moda portuguesa, em relação à estrangeira, está muito bem classificada, é credível. A única coisa que falta são multinacionais por trás, investidores que apoiem os designers portugueses no sentido de se poderem tornar grandes marcas como as que conhecemos internacionalmente. Para podes criar uma marca é um processo muitíssimo longo e tem custos gigantescos e daí não haver nenhuma marca em Portugal que seja sponsorizada por financeiros, que seja cotada na Bolsa, à semelhança de marcas como em Paris, Nova Iorque, Milão, Londres, etc.

 

Então essa será também uma das maiores dificuldades com que se deparam quando tentam entrar no mercado?

É uma das maiores dificuldades obviamente porque, para poder lançar qualquer coleção, e garantir reconhecimento em termos mundiais, tem de haver um apoio fortíssimo em termos publicitários e de marketing. E estamos a falar de valores astronómicos que as grandes marcas internacionais têm e que os designers portugueses não têm.

 

Acredita ser possível uma maior interação e intercâmbio entre os Designers dos países lusos?

Acredito sempre! Acredito que o intercâmbio é bastante importante. Acredito que é muito bom que pessoas de outros países apresentem coleções no nosso país, assim como nós possamos apresentar as nossas coleções noutros países. Esse foi sempre um chavão que tentei reforçar para que acontecesse.

 

Tem apresentado coleções em diversos países. Qual o impacto do seu trabalho exterior?

O impacto é muito bom. Apresento as coleções em vários países e atualmente vendemos 80% de todas as nossas criações em termos internacionais e 20% em Portugal. Daí que seja bastante importante apresentar as coleções fora, porque quando apresentamos nos certames internacionais, como na Mercedes Benz Fashion Week em Madrid, significa que aparecem muitos jornalistas de Espanha que muitas das vezes não vêm a Portugal em massa. Apresentar as coleções noutros países faz com que a marca seja mais reconhecida e com que  haja uma grande divulgação, o que obviamente se traduz em vendas, que é o objetivo final.

 

E Angola? Como vê a mulher angolana em relação à moda?

Angola é um mercado que acariciei sempre do início. É um mercado onde, todos os meus clientes, em lojas multimarca, vêem a minha coleção nos timings normais que os meus clientes de todos os outros países vêem. Sou sempre bem recebido e acarinhado pelo povo angolano. Quando apresento as minhas coleções de há 2,3,4, 5 anos. Quando apresento uma coleção todas as pessoas dos quatro cantos do mundo estão rigorosamente a ver a mesma coleção. Em relação a Angola as pessoas têm um bocadinho a ideia que é um povo que não percebe de moda. Sou um bocado suspeito porque tenho grandes amigos angolanos… O povo angolano é um povo que percebe muito de moda! É um povo que tem bastante poder económico e que muito facilmente apanha um jacto privado e vai às grandes casas internacionais de moda, tem acesso instantâneo às primeiras linhas e coleções em primeira mão.

 

Fale-nos um pouco sobre a sua inspiração para a coleção PV15?

É uma coleção onde as matérias-primas são muito nobres. De há uns anos para cá tenho feito um esforço no sentido das escolhas das matérias-primas. São todos tecidos de altíssima qualidades das grandes casas italianas, nomeadamente de lanifícios tais como a Cerruti, a Loro Piana ou a Canonico. É uma coleção no qual o fitting da roupa está completamente testado. É um fitting que se adapta perfeitamente aos corpos das pessoas. É uma coleção fresca, uma coleção leve, é uma coleção muito clássica mas que ao mesmo tempo tem uns toques desportivos. É uma coleção que mistura ténis com vestidos de senhora, que lhe dá um ar chique, mais casual e mais desportivo. Foi uma coleção muito aplaudida nas semanas de moda internacionais e pelas revistas da especialidade. É uma coleção que gosto muito e com a qual me identifico.

 

Atualmente fala-se muito sobre sustentabilidade na moda. Já faz uso destes materiais no seu trabalho?

Os materiais que uso são materiais muito nobres. A maior parte das casas com quem trabalho, em termos de tecidos, são tudo casas com padrões muito altos em termos de qualidade, em termos de poluição. Miguel Vieira é uma marca que tem holograma já há muito anos. Cada peça leva esse holograma de prata e chumbo, sendo todas elas numeradas. É um holograma distribuído pelos Estados Unidos e que segue uma quantidade de regras. Acho que todos os projectos são bem-vindos desde que tenham pés e cabeça para andar. Fazemos uma análise muito bem pensada a todos os projectos que me são apresentados. O difícil é criar um conceito da marca. A partir do momento em que esse conceito está criado é fácil, quando os produtos me chegam, conseguir dar uma nova roupagem e design ao respectivo produto, por o nosso cunho, com o nosso conceito da marca. Daí que recebamos imensas propostas de vários produtos, de pessoas e empresas que querem que assinemos produtos. Mas ainda há muita coisa que me falta fazer… ainda me falta uma linha de maquilhagem e uma linha de perfumes. Independentemente de atualmente o Homem, Mulher e Criança Miguel Vieira não dependerem de ninguém e ser vestidos da cabeça aos pés.

 

Quais são para si as qualidades que um designer de moda deve ter?

Em primeiro lugar tem que trabalhar muito. Arduamente! As pessoas acham sempre que o designer de moda é aquela pessoa que vive num espírito muito zen, que acorda às 4 da manhã e é só desenhar um vestido. Um designer de moda tem metas a cumprir, tem timings a cumprir, vive sob pressão o ano inteiro. Tem de ser uma pessoa muito bem disciplinada, com os pés muito bem assentes na terra e trabalhar muito, muito e cada vez mais, muito! Atualmente estou a apresentar a minha coleção Outono/Inverno 2015/2016, para a próxima semana estarei em Milão a fazer as compras para a Primavera/Verão 2016, seguidamente apresentarei as minhas coleções em desfiles, depois apresentarei as coleções nas feiras internacionais, portanto o ano inteiro é sempre assim. De 6 em 6 meses apresentam-se as coleções, de 6 em 6 meses tudo volta ao início. É preciso ter muita dedicação, gostar muito do que se faz e cada vez ser melhor, melhor e melhor!

 

É considerado o Padrinho Jovens Criadores de Moda. Que conselhos daria ao “Sangue Novo” que dá agora os primeiros passos nesse mundo?

Cada país, para ser apelidado como um “país de tradição de moda”, tem de ter muitos designers, tem de ter muitos cabeleireiros, tem de ter muitos maquilhadores, tem de ter muitos jornalistas, tem de ter muito tudo! Obviamente é com grande tristeza que vou vendo alguns colegas meus a desistir deste percurso… O que eu tento sempre é dar apoio moral. Através de palestras ou reuniões, tento dar força aos novos designers portugueses. Quanto mais formos, melhor iremos ser! Por isso fico muito feliz com cada marca que vejo surgir, com cada novo designer e quando as novas coleções são apresentas, porque isso ajuda não só a mim como a todos os portugueses! O conselho seria não desistir! Mas sobretudo pensar que esta área é muito bonita, muito glamorosa, mas uma área muito, muito, difícil onde é preciso trabalhar mesmo muito e dar muito de si. Acho que o povo português é um povo trabalhador, é um povo que tem objectivos e como tal é fácil haver mais designers em Portugal. 

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